Partido Comunista Internacional Corpo unitário e invariante das teses do partido


Terceira Internacional Comunista
5º Congresso - 23ª sessão, 2 de Julho de 1924


RELATÓRIO DA ALA ESQUERDA DO PARTIDO COMUNISTA DE ITÁLIA SOBRE O FASCISMO

Sobre o tema do fascismo, eu dei um relatório famoso no 4º Congresso, quando vimos um ponto de viragem decisivo na história do fascismo em Itália. Foi na véspera da conquista do poder pelos fascistas que deixei a Itália com a nossa delegação.

Hoje devo falar sobre este assunto pela segunda vez, e novamente quando nos encontramo num ponto de viragem decisivo para o desenvolvimento do Fascismo e que, como sabem, foi provocado pelo caso Matteotti. Por acaso, este evento ocorreu de novo imediatamente após a partida da delegação italiana ao Quinto Congresso. Assim, os dois relatórios caem em ambos os casos num momento bem capaz de iluminar o fenómeno social e político extremamente importante do Fascismo.

Claro que não vou repetir aqui tudo o que disse no meu primeiro relatório sobre o desenvolvimento histórico do Fascismo, porque tenho de lidar com demasiados outros argumentos. Por conseguinte, apenas recordarei muito brevemente as ideias fundamentais das críticas ao fascismo que então levei a cabo. Fá-lo-ei esquematicamente porque posso manter completamente intacto o que disse no Quarto Congresso.

Antes de tudo: a origem do fascismo.

Recordei que o movimento fascista estava historicamente ligado a uma parte dos grupos que defendiam a intervenção italiana na guerra mundial. Os grupos que apoiavam tal política eram numerosos e incluíam, entre outros, uma extrema esquerda composta por renegados do sindicalismo, do anarquismo e, em alguns casos – especialmente no caso de Mussolini – renegados da extrema esquerda do socialismo. Este grupo foi completamente identificado com a política de concórdia nacional e de intervenção militar contra os Impérios Centrais. É muito característico que tenha sido este grupo a fornecer o fascismo do pós-guerra com o seu pessoal geral. As relações entre este primeiro conjunto político e o grande movimento fascista perante o qual nos encontramos hoje podem ser seguidas em sucessão ininterrupta.

A data de nascimento da clássica ação fascista é 21 de Novembro de 1920; ou seja, encontra-se nos eventos que tiveram lugar em Bolonha (Palazzo D’Accursio). Deixo de lado, no entanto, este ponto de natureza puramente histórica e chego a outros factos.

A crise governamental em Itália tem sido caracterizada por alguns da seguinte forma: o fascismo representa a negação política do período durante o qual uma política burguesa liberal e democrática de esquerda predominava em Itália. O fascismo é a forma mais extrema da reação contra a política de concessões implementada por Giolitti e companhia depois da guerra. Nós, por outro lado, somos de opinião que existe uma ligação dialética entre estes dois períodos: que a atitude original da burguesia italiana durante a crise em que o Estado mergulhou após a guerra não era mais do que a preparação natural para o fascismo.

Neste período, havia uma ofensiva proletária que ameaçava a burguesia inteira. As forças da burguesia não eram suficientes para enfrentar um ataque direto. Por conseguinte, teve de utilizar manobras inteligentes para evitar o choque e, enquanto estas manobras eram realizadas pelos políticos da esquerda, o fascismo teve a oportunidade de preparar os seus subsequentes meios de força gigantescos, teve a oportunidade de criar as premissas para o segundo período em que tomou a própria ofensiva para dar um golpe aniquilador contra as forças revolucionárias. Não irei repetir aqui todos os argumentos a favor desta interpretação. Também aqui se aplica o que expus no IV Congresso. Outro facto. O fascismo começa nos distritos agrícolas. Isto é extremamente característico. O ataque às posições do proletariado revolucionário começa a partir das zonas camponesas. Bolonha é um centro rural. É a capital de uma grande província terrestre no vale do Pó, e foi aqui que o fascismo iniciou a sua viagem triunfal por toda a Itália, estendendo-se em diferentes direções. No nosso primeiro relatório demos uma descrição geográfica desta viagem triunfante. Basta mencionar aqui que o Fascismo atacou os centros industriais, e as grandes cidades só mais tarde.

Mas mesmo que seja verdade que a ação do fascismo começou em áreas não industriais, não devemos tirar a conclusão de que o movimento fascista foi chamado à existência pelos interesses da burguesia rural, pelos grandes latifundiários. Pelo contrário: por detrás deste movimento havia também os interesses da grande indústria, do grande comércio e da alta finança. É uma tentativa de uma ofensiva contra-revolucionária unitária de todas as forças burguesas. Reitero também esta tese. Voltarei a ele várias vezes no decurso do relatório. Devemos acrescentar - terceiro ponto - o facto da mobilização da classe média. À primeira vista, de acordo com a sua aparência externa, o fascismo dá a impressão de não ser um movimento dos estratos sociais superiores acima mencionados, ou seja, os grandes latifundiários e a grande burguesia capitalista, mas sim um movimento da pequena e média burguesia, dos veteranos, dos intelectuais e de todos aqueles estratos que o proletariado ainda não foi capaz de atrair para a sua órbita e reunir em torno de si sob a palavra da ditadura revolucionária. Dentro destas classes desenvolveu-se uma poderosa mobilização ideológica, política e organizacional, a sua inquietude e descontentamento foram organizados. Foi-lhes dito: Vocês são a terceira classe a entrar no campo de batalha, ou seja, uma nova força revoltante contra o proletariado, mas também contra a velha burguesia e os seus políticos clássicos. Durante a crise do pós-guerra, o proletariado não tinha conseguido implementar a sua política revolucionária e tomar aquele poder que a antiga classe dominante já não era capaz de manter. Agora uma terceira classe entra no campo. Tal é a aparência externa sob a qual o fascismo se apresenta. Mas na realidade foi uma mobilização da classe média por iniciativa e sob a orientação das forças conservadoras da grande burguesia e com a ajuda e assistência do aparelho de Estado. Daí a dupla face do fascismo: primeiro, é uma defesa dos interesses da grande burguesia, ou seja, dos interesses da classe dominante; segundo, é uma mobilização da classe média, ou seja, das importantes forças sociais da pequena e média burguesia para a defesa desses interesses. No meu primeiro relatório critiquei a ideologia do fascismo. Eu perguntei: em que teoria se baseia este movimento? Hoje tornou-se um lugar comum dizer que o fascismo não tem teoria, não fez o mínimo para criar os lineamentos de uma nova teoria política. Afirma ter realizado uma revolução, ter dado um novo rosto à luta social e política. Na realidade, do ponto de vista teórico, não criou absolutamente nada que pudesse servir como base construtiva para o programa desta revolução, desta renovação auto-intitulada de cima para baixo da sociedade italiana e, como diz Mussolini, talvez amanhã também da sociedade de outros países. É um facto que o Fascismo possui no início um programa que toma emprestado um certo número de pontos dos programas da extrema esquerda. Mas este programa só serve as necessidades daquela mobilização de que já falámos. É rapidamente esquecido, transforma-se no seu oposto direto, assim que o fascismo chega ao poder, a partir desse momento, este programa de suposta renovação deixa de existir.

O fascismo não é um movimento revolucionário. É um movimento puramente conservador para a defesa da ordem burguesa em vigor, não traz nenhum programa novo, há contudo algo de novo que traz, não no campo ideológico mas sim no campo organizacional. Temos então de estabelecer imediatamente que aqui algo vem à luz que até agora nem a burguesia italiana nem a burguesia de outros países empregaram. A política da burguesia italiana caracterizou-se pelo facto de possuir grandes líderes políticos, políticos profissionais, membros do parlamento que asseguraram um grande seguimento nas eleições, que possuía um grande partido liberal, mas que lhe faltava qualquer força organizacional. O partido liberal tinha uma doutrina clara e concreta, uma tradição histórica bem definida, e uma ideologia, do ponto de vista burguês, que era mais que suficiente. No entanto, faltava-lhe organização. O fascismo derrubou completamente este estado de coisas. Não trouxe nada de novo do ponto de vista ideológico (veremos imediatamente que valor tem a sua crítica à ideologia dos velhos partidos burgueses). Mas traz para o terreno um novo fator que faltava completamente aos velhos partidos, um poderoso aparelho para a luta, poderoso tanto como organização política como militar.

Isto mostra que no período contemporâneo de crise grave do capitalismo, o aparelho de Estado já não é suficiente para defender a burguesia. Deve ser complementada por um grupo bem organizado que trabalha em todo o país e se esforça por encontrar apoio na classe média e talvez até para se aproximar de certos estratos da classe trabalhadora. Durante esta crise, a burguesia só pode enfrentar a revolução iminente através da mobilização das classes não-burguesas. Quais são as relações entre o fascismo e o proletariado? O fascismo é, pela sua natureza, um movimento anti-socialista e, portanto, anti-operário. Desde o primeiro ao último momento apresenta-se como um destruidor até das mais pequenas realizações da classe trabalhadora. Contudo, não é admissível identificar mecanicamente o fascismo com a reação tradicional da extrema direita: com o seu estado de sítio, com o seu terror, com as suas leis excecionais, com a sua proibição de organizações revolucionárias. O fascismo vai mais longe. É um movimento mais moderno, mais refinado, que procura ao mesmo tempo ganhar influência entre as massas proletárias. E para tal, assume sem hesitação os princípios da organização sindical. Procura estabelecer organizações económicas de trabalhadores.

É evidente que estes sindicatos não podem ser comparadas a sindicatos livres. No entanto, na minha opinião, deve ser estabelecido que o facto da existência de sindicatos fascistas constitui um argumento de grande importância contra o sindicalismo revolucionário, que vê na organização económica a arma decisiva da luta de classes. Os factos mostram que esta arma pode muito bem ser utilizada para fins contra-revolucionários.

É claro que o movimento sindical fascista difere do verdadeiro movimento sindical num ponto muito característico, nomeadamente, no facto de se recrutar a si próprio não só das fileiras da classe trabalhadora, mas de todas as classes, pois na realidade é uma forma de organização cuja base é formada pela profissão. O objetivo é criar organizações paralelas de trabalhadores e empregadores com base na cooperação entre as classes.

Chegámos assim a um ponto em que o fascismo e a democracia se encontram. O fascismo repete na essência o velho jogo dos partidos burgueses de esquerda e da social-democracia, ou seja, chama o proletariado à trégua civil. Tenta alcançar este objetivo através da formação de sindicatos de trabalhadores industriais e rurais que depois inicia em colaboração prática com as organizações patronais. É claro que o único fim de toda esta ação é a aniquilação das organizações revolucionárias e a sujeição das massas proletárias à exploração pura e dura dos capitalistas. No entanto, por parte do estrato mais rico dos latifundiários, o fascismo não é retratado como um método brutal de oprimir os trabalhadores; pelo contrário, é apresentado sob a forma de uma organização de todas as forças produtivas do país, cujo reconhecimento exige sob a forma de uma cooperação de todos os grupos económicos para o "interesse nacional".

Subjacente a tudo isto está, naturalmente, a exploração da ideologia nacionalista e patriótica. Nisto não há nada novo. Durante a guerra, no interesse nacional, a fórmula da submissão de todos os interesses particulares ao interesse geral de todo o país já tinha sido amplamente utilizada. O fascismo retoma assim um antigo programa de política burguesa, mas este programa aparece numa forma que, num certo sentido, ecoa o programa de social-democracia e que, por outro lado, contém algo realmente novo, nomeadamente uma poderosa organização política e militar ao serviço das forças conservadoras.

A conclusão que retirei no meu discurso ao Quarto Congresso foi que a própria base do programa fascista já mostra uma contradição histórica e social fundamental. O fascismo gostaria de reconciliar e silenciar todos os conflitos económicos e sociais dentro da sociedade. Mas esta é apenas a aparência externa. Na realidade, procura trazer unidade dentro da burguesia, uma coligação entre os estratos mais ricos das classes latifundiárias na qual suaviza os contrastes individuais entre os interesses dos grupos diferentes da burguesia e das diferentes empresas capitalistas.

No campo económico, o fascismo move-se inteiramente na velha esteira do liberalismo burguês: rejeita toda a intervenção do Estado na economia; prega a liberdade de ação ilimitada das empresas; defende o livre jogo das forças que se libertam do capitalismo. Mas, ao fazê-lo, enredou-se numa contradição insolúvel, porque é extremamente difícil levar a cabo uma política unitária da classe burguesa enquanto as organizações económicas tiverem liberdade de desenvolvimento total e enquanto houver total liberdade de concorrência entre os grupos individuais de empresários. Tiramos a conclusão de que o fascismo está condenado ao fracasso devido à anarquia económica do capitalismo, apesar de ter tomado firmemente nas suas mãos as rédeas do governo, apesar de ter à sua disposição a poderosa arma do aparelho de Estado, e apesar de depender de uma organização alargada a toda a península, que se mobiliza para os interesses da burguesia unida, da classe média e, em certa medida, também do proletariado. O poderoso aparelho do fascismo pode levar-nos a acreditar que o poder fascista será duradouro. Mas as próprias raízes deste poder sofrem de uma contradição fundamental, porque o fascismo não mostra que possui quaisquer novos meios para superar a crise do capitalismo.

Somos hoje como ontem da opinião de que a crise capitalista não pode ser ultrapassada por nenhum meio "heroico". Repeti aqui os conceitos fundamentais para a análise do fascismo que já tinha realizado no meu primeiro relatório; são as mesmas conclusões que sempre tirámos e que são plenamente confirmadas pelos quase dois anos de ditadura fascista.

* * *

Voltemos à fase histórica em que estávamos na altura do Quarto Congresso, quando os fascistas tomaram o poder: o fim da ofensiva geral contra as forças revolucionárias e contra os velhos detentores do poder político em Itália, a marcha sobre Roma. Nesse relatório, ainda não tinha abordado a questão controversa que, durante o Quarto Congresso, surgiu nas nossas fileiras; mas o camarada Zinoviev aludiu a ela no seu discurso; o que se passou durante a nossa ausência de Itália? um golpe de Estado ou uma farsa? Abordarei brevemente esta questão. Na minha opinião, há três questões a colocar: estamos perante uma revolução, um golpe de Estado ou uma farsa?

Recordemos os acontecimentos em torno da tomada do poder pelos fascistas. Não assistimos a uma luta armada; assistimos apenas a uma mobilização do fascismo, que ameaçava uma tomada revolucionária do poder, e a uma espécie de mobilização defensiva do Estado, que a dada altura chegou mesmo a declarar um estado de sítio. Mas a resistência por parte do Estado não teve lugar na prática. Não houve luta armada. Em vez de um confronto, foi concluído um compromisso, e a certa altura a luta foi, por assim dizer, adiada, adiada, não porque o Rei, no momento certo, se recusou a assinar o decreto de estado de sítio, mas evidentemente porque o compromisso já tinha sido preparado há algum tempo. O governo fascista foi assim constituído da forma normal: após a demissão do gabinete da Facta, o Rei convocou Mussolini para formar um novo ministério. O líder desta “revolução” auto-intitulada chegou a Roma vindo de Milão num carro adormecido, saudado durante a viagem nas estações por todos os representantes oficiais do Estado. Não podemos falar de uma revolução não só porque faltava o ataque insurrecional para a conquista do poder, mas também por tudo o que dissemos sobre o significado histórico do Fascismo. O fascismo não representa, do ponto de vista social, uma inversão; não possui nenhum programa novo; não representa sequer a negação histórica dos velhos métodos de governo da burguesia; representa apenas a continuação lógica e dialética completa da fase anterior dos chamados governos burgueses democráticos e liberais.

Combatemos resolutamente a afirmação repetida mil vezes pelos fascistas de que a sua tomada do poder significa uma revolução. Nos seus discursos, Mussolini diz: realizámos uma revolução. Mas se contrariarmos: não houve revolução, nem luta, nem terror revolucionário, porque a verdadeira "conquista do poder" e a verdadeira aniquilação do inimigo não tiveram lugar, então Mussolini responde com um argumento que, de um ponto de vista histórico, é bastante ridículo: ainda temos tempo para isso, podemos sempre completar a nossa revolução. Mas a revolução não pode ser "colocada na geladeira", nem mesmo o mais ousado e poderoso dos líderes tem o poder de o fazer. Não é com argumentos semelhantes que se pode refutar as críticas que a revolução não teve lugar. Não se pode dizer: é verdade, estes factos não ocorreram, mas podemos remediá-los em qualquer altura. Naturalmente, é sempre possível que surjam novas batalhas. Mas a marcha sobre Roma não foi uma batalha, não foi uma revolução. E quando as pessoas dizem: mas houve uma mudança invulgar no poder governamental, um golpe de Estado, não me deterei nesse ponto porque a questão resume-se, em última análise, a um jogo de palavras. Mesmo quando usamos o termo "golpe de estado", queremos indicar uma mudança de governo que não se limita a uma mudança pura e simples de pessoa, a uma mudança pura e simples no estado maior do partido no poder, mas uma ação que elimina violentamente as diretrizes governamentais então vigentes. E o fascismo não o fez. Falou contra o parlamentarismo, a sua teoria era antidemocrática e antiparlamentar. Mas, em geral, o seu programa social não é senão o velho programa de mentiras democráticas, que é apenas uma arma ideológica para a manutenção do domínio da burguesia. O fascismo muito rapidamente – mesmo antes de tomar o poder – tornou-se "parlamentar"; governou durante um ano e meio sem dissolver a antiga câmara, que na grande maioria era composta por não-fascistas, e em parte até mesmo por anti-fascistas, com a flexibilidade que é característica dos políticos burgueses esta câmara apressou-se a colocar-se à disposição de Mussolini a fim de legalizar a sua posição e conceder-lhe todos os votos de confiança que ele gostava de pedir. O próprio primeiro gabinete de Mussolini – e ele volta sempre a ele nos seus "discursos de esquerda" – não foi formado sobre bases puramente fascistas, mas abraçou representantes dos mais importantes dos outros partidos burgueses: do partido de Giolitti, dos Popolari, da esquerda democrática. Era, portanto, um governo de coligação. Foi isso que deu origem ao chamado golpe de Estado! Um partido que na Câmara tinha 35 deputados tomou o poder e ocupou a grande maioria dos cargos ministeriais e subsecretários.

Além disso, há também a assinalar um facto histórico muito importante, em Itália, que contudo não ocorreu durante a marcha sobre Roma: refiro-me à ocupação de toda a Itália pelos fascistas, uma ocupação que foi preparada pelo curso dos acontecimentos e que pode ser seguida geograficamente. A tomada do poder por Mussolini foi apenas o reconhecimento de um equilíbrio de poder já anteriormente determinado. Todos os governos que tinham chegado ao poder – sobretudo o de Facta – tinham dado rédea solta ao fascismo. Era isto que governava a Itália; tinha uma mão completamente livre e tinha o aparelho estatal à sua disposição. O governo de Facta permaneceu ao leme por apenas dois meses, à espera do momento que o Fascismo considerasse adequado para assumir o poder.

Por estas razões, utilizámos o termo "farsa". No entanto, mantemos na íntegra a nossa afirmação de que não se trata aqui de uma revolução. Uma mudança nas forças dirigentes da burguesia teve de facto lugar, mas esta mudança foi preparada e realizada pouco a pouco; não representa, a nível económico e social, ou mesmo a nível da política interna, qualquer mudança no programa da burguesia italiana. De facto, a grande força da chamada revolução fascista, tanto antes como depois da marcha sobre Roma, não se apoiou na utilização oficial do aparelho de Estado, mas na reação ilegal flanqueada, ainda que tacitamente, pela polícia, as administrações municipais, a burocracia e o exército. Esta participação tácita, e devemos enfatizar isto, já estava em plena floração antes dos fascistas tomarem o poder.

Nos seus primeiros discursos na Câmara, Mussolini disse; eu poderia expulsá-lo desta sala com a ajuda das minhas tropas. Eu tenho o poder de o fazer, mas não o faço. A Câmara pode continuar a desempenhar a sua função se estiver preparada para cooperar comigo. A enorme maioria da antiga Câmara curvou-se de boa vontade à ordem do novo líder.

De facto, pode estabelecer-se que nenhuma nova legislação foi introduzida desde a tomada do poder pelo fascismo. A nível da política interna, não foram promulgadas leis excecionais. Houve certamente perseguições políticas, de que falaremos mais adiante, mas oficialmente as leis não foram alteradas, não foram promulgados decretos excecionais na linha dos dos governos burgueses durante épocas revolucionárias passadas, por exemplo: sob Crispi e Pelloux que durante algum tempo procuraram refúgio contra os partidos revolucionários e os seus líderes numa política de estado de sítio, jurisdição militar e medidas repressivas.

O fascismo, por outro lado, continua a empregar contra as forças proletárias o mesmo método original e moderno que tinha utilizado antes da sua conquista do poder. Até declarou que as suas tropas de choque ilegais seriam desmanteladas assim que os outros partidos fizessem o mesmo. Na realidade, as forças combatentes fascistas desapareceram como organizações existentes fora do Estado, apenas para serem reintegradas no aparelho de Estado através da formação da "Milícia Nacional". E, agora como antes, esta força armada permanece à disposição do Partido Fascista e, pessoalmente, de Mussolini. Representa uma nova organização oficialmente absorvida pelo aparelho estatal. É o pilar sobre o qual repousa o fascismo.

A questão permanece como antes na ordem do dia: deve esta organização desaparecer ou não? Pode o fascismo ser exigido para usar meios constitucionais na sua política interna em vez destes novos órgãos? Naturalmente, o fascismo ainda não reconheceu as velhas normas do direito constitucional, e até hoje a Milícia é o adversário mais formidável para todos os aspirantes ao derrube do poder fascista.

A nível judicial não existem aqui leis excecionais. Quando milhares de comunistas italianos foram presos em Fevereiro de 1923, pensou-se que o fascismo iria iniciar uma campanha judicial contra nós, tomar medidas enérgicas e proferir as sentenças mais graves. Mas a situação evoluiu muito favoravelmente e fomos julgados de acordo com as velhas leis democráticas. O código penal italiano, o trabalho do representante da esquerda burguesa extrema, Ministro Zanardelli, é extremamente liberal e deixa muitas possibilidades em aberto, especialmente no campo das infrações políticas e crimes de opinião, é suave e elástico. Por conseguinte, foi fácil para nós tomar a seguinte posição: “Compreenderíamos muito bem se o fascismo se livrasse dos seus adversários e tomasse medidas ditatoriais contra nós. É perfeitamente justificado julgar-nos e condenar-nos, porque somos comunistas e porque o nosso objetivo é o derrube do governo existente através da ação revolucionária; mas, do ponto de vista jurídico, o que fazemos não é proibido. Outras coisas são proibidas, mas não tem provas da alegada conspiração, da alegada conspiração em que a acusação se baseia.” Não só defendemos este ponto de vista, mas em virtude do mesmo fomos absolvidos pelos tribunais porque era absolutamente impossível condenar-nos ao abrigo das leis existentes.

Pudemos então ver que o aparelho judicial e policial não estava de todo, do ponto de vista do Fascismo, à altura da sua tarefa. O fascismo tomou conta do aparelho estatal mas não foi capaz de o transformar para os seus próprios fins. Não tinha a intenção de se livrar dos líderes comunistas através de julgamento. Tinha os seus próprios quadros, as suas próprias organizações terroristas, mas no campo da justiça não pensava em utilizar novas armas. Na minha opinião, esta é mais uma demonstração da completa insuficiência de garantias burguesas-liberais e de justiça liberal na luta contra a liberdade de circulação do proletariado. É verdade que em tais circunstâncias até a nossa defesa teve de se mover por meios legais, mas se o adversário se encontrar na posse de uma organização ilegal, por cujos meios poderia resolver a questão de uma forma totalmente diferente, estas garantias democráticas perdem todo o sentido para ele.

O fascismo conduz a velha política de mentiras democráticas de esquerda, de lei igual para todos e assim por diante. Isto não significa que não realize perseguições graves contra o proletariado. Quero apenas dizer que em relação aos processos puramente políticos com os quais os líderes do proletariado revolucionário seriam aniquilados, a nova situação criada pelo fascismo não mudou nada do sistema clássico de governos burgueses-democráticos. Em vez disso, uma revolução é sempre caracterizada pela transformação das leis políticas.

Vou agora tratar brevemente dos acontecimentos que tiveram lugar após a tomada do poder pelo Fascismo.

Antes de tudo, algumas palavras sobre a situação económica em Itália. Os fascistas continuam a repetir que a crise económica de 1920 e 1921, desde que tomaram o poder, deu lugar a um período de florescimento. Afirmam que nos últimos dois anos a situação foi estabilizada, o equilíbrio económico foi restaurado, a ordem foi restabelecida e toda a situação melhorou consideravelmente. Estes seriam os benefícios do Fascismo para todas as classes da sociedade, a bênção pela qual o povo italiano ficaria endividado ao Fascismo. Esta tese oficial é apoiada por uma mobilização em grande escala de toda a imprensa e pelo emprego de todos os meios à disposição de um partido que está firmemente no poder. Mas não é mais do que uma mentira oficial. A situação económica em Itália é atualmente má. A taxa da lira atingiu o ponto mais baixo de todo o período do pós-guerra: vale apenas 4,3 cêntimos americanos, ou seja, as flutuações da moeda caíram para o ponto mais baixo registado até agora. O fascismo não conseguiu melhorar a situação. É verdade que, segundo Mussolini, se não fosse por ele a lira teria caído ainda mais, mas este é um argumento que não pode ser levado a sério.

Os fascistas também afirmam ter restabelecido o equilíbrio do orçamento. Isto é verdade de um ponto de vista material: bem se sabe que com orçamentos estatais se pode provar o que se quiser. Em qualquer caso, os fascistas não contrariaram a afirmação dos peritos da oposição de que se o preço do carvão não tivesse sido reduzido em comparação com os de 1920-21, e se as despesas de guerra, que têm de ser pagas num determinado período de tempo, não tivessem sido registadas de forma diferente do ponto de vista puramente contabilístico, o défice orçamental seria hoje muito superior ao de 1920-21, como foi possível demonstrar com números.

Quanto ao índice da situação económica, este último mostra uma deterioração geral. É verdade que os números do desemprego permanecem muito atrás dos enormes números de 1920 e especialmente de 1921, mas os números dos últimos meses mostram que o desemprego está de novo a aumentar e que a crise industrial ainda não terminou definitivamente. No campo dos negócios a situação é extremamente tensa; o comércio está a encontrar dificuldades sérias. Prova disso são as estatísticas de falências, que mostram um enorme aumento nos últimos anos. O índice do custo de vida nas grandes cidades também está a aumentar. É evidente que toda a situação económica em Itália está a piorar; não está de todo estabilizada. E o que o fascismo tem produzido através da enorme pressão, exercida pela burguesia, é apenas uma estabilidade externa. Os índices oficiais mostram que tudo o que foi conseguido é apenas a expressão desta terrível pressão exercida sobre o proletariado; que tudo isto foi conseguido apenas à custa da classe proletária e no puro interesse da classe dominante. E não se deve esquecer que o próprio facto desta pressão implacável sugere que haverá uma explosão por parte das classes que foram sacrificadas à tentativa fascista de restabelecer a situação económica, no interesse exclusivo da grande burguesia.

Chego agora à atitude do governo fascista em relação aos trabalhadores. Já referi acima que os grandes julgamentos políticos encenados contra nós ofereciam provas da inadequação do aparelho judicial do Estado fascista. Mas as graves perseguições contra o proletariado tiveram lugar assim que pudemos acusar os nossos camaradas não de crimes considerados pelo código como "políticos", mas de crimes comuns. Têm tido e continuam a ter lugar numerosos confrontos entre fascistas e proletários, isto é, antes de mais nada comunistas; e nestes confrontos há normalmente mortes e feridos de ambos os lados. É bem sabido que muito depois do fascismo ter tomado o poder, os fascistas que mataram trabalhadores tinham a garantia de total impunidade, mesmo quando existiam provas complemente inegáveis contra eles. Por outro lado, os trabalhadores que feriram ou mataram fascistas em autodefesa foram condenados ao castigo mais severo. A amnistia decretada é em benefício exclusivo daqueles que cometeram crimes comuns para fins nacionais: por outras palavras, é uma amnistia para os assassinos fascistas, enquanto os criminosos comuns que perseguem objetivos anti-nacionais, ou seja, que lutam contra o fascismo, devem esperar os piores castigos que há. É uma amnistia de classe pura.

Outra amnistia reduziu as penas para 2-3 anos; mas é preciso saber que os nossos camaradas foram quase sempre condenados a 10, 15 e 20 anos de prisão. Centenas e centenas de trabalhadores e camaradas italianos estão agora na prisão porque não conseguiram atravessar a fronteira a tempo, após os confrontos armados com os fascistas em que tinham participado e aos quais os fascistas quase sempre tinham dado ocasião. O atual governo italiano está assim a levar a cabo a mais feroz perseguição da classe trabalhadora. A classe trabalhadora nem pode tentar defender-se contra o terror fascista sem que a justiça proceda imediatamente e de uma forma que se afaste dos julgamentos políticos clássicos por "traição". No terreno da justiça, todas as garantias da existência do partido comunista, do movimento anarquista, etc., permanecem formalmente válidas como antes. Mas o que é que não é possível… em teoria?

As coisas são semelhantes no que diz respeito à imprensa. Oficialmente, existe liberdade de imprensa. Todos os partidos estão autorizadas a publicar os seus órgãos, mas embora não existam fundamentos legais para tal, os Questores podem proibir o aparecimento de um jornal. Até agora, isto só foi feito contra os comunistas. O nosso jornal, Il Lavoratore di Trieste, foi banido em virtude de uma lei austríaca ainda em vigor naquela cidade. Assim, as antigas leis austríacas estão a ser utilizadas contra os revolucionários, ou seja, contra aqueles que durante a guerra se designaram, pelo seu derrotismo, como cúmplices da Áustria!

Acrescente-se a isto o conhecido sistema de supressão de jornais por grupos armados, expulsão de redações, etc, pelo qual a publicação da imprensa proletária se torna impossível; a sabotagem de associações jornalísticas, etc, torna-se impossível. Ainda hoje os nossos jornais, assim como os órgãos da oposição, são frequentemente destruídos ou queimados quando chegam ao seu destino.

O governo fascista exerce uma pressão terrível sobre os sindicatos. Os trabalhadores são forçados a aderir à força aos sindicatos fascistas. As sedes dos sindicatos vermelhos são destruídas. Apesar disso, as massas não puderam ser mobilizadas para as organizações económicas fascistas. Os números que os fascistas publicam neste campo não passam de um bluff. Na realidade, hoje em dia o proletariado é desorganizado nos sindicatos. Por vezes as massas seguem movimentos dirigidos por sindicatos fascistas, mas apenas porque isto lhes dá a única oportunidade de fazer greve em geral. Certos trabalhadores, certas categorias, que na grande maioria não são partidários dos sindicatos fascistas e que nas eleições das comissões internas votam por grande maioria contra os fascistas e a favor dos candidatos revolucionários, são forçados a aderir ao sindicato fascista a fim de poderem mesmo ainda tentar lutar contra a burguesia. O resultado é um grave conflito no seio do movimento sindical fascista. Não pode impedir greves e é arrastado para a luta contra as organizações fascistas dos empresários. Este conflito no seio dos organismos fascistas e governamentais é sempre resolvido em detrimento dos trabalhadores. Daí o descontentamento, a grave crise que os líderes do movimento sindical fascista já não conseguiam esconder nas assembleias dos últimos meses. As suas tentativas de organizar o proletariado industrial fracassaram por completo. A sua ação tende a criar um pretexto – supérfluo – para refrear a atividade dos sindicatos livres e manter o proletariado num estado de desorganização.

Recentemente foi mesmo tomada uma medida governamental contra os sindicatos livres: o controlo oficial pelo poder estatal foi introduzido sobre o trabalho de organização e administração interna dos sindicatos. Este é um passo muito sério, mas não altera fundamentalmente nada na situação, porque o trabalho dos sindicatos livres já estava quase completamente paralisado por outras medidas.

Os sindicatos livres continuam a existir, assim como as câmaras de trabalho, as federações comerciais, etc., mas é absolutamente impossível dar o número real dos seus membros, mesmo onde conseguiram manter-se em contacto com as massas, porque a recolha ordenada e contínua de contribuições e a proselitismo são quase completamente proibidas. Até agora não tem sido possível em Itália reconstruir os quadros das organizações sindicais. Mas a grande vantagem do Fascismo reside precisamente no facto de não haver mais greves. Este é, para a burguesia, e para os filisteus da classe média, o ponto decisivo.

Afirma-se que em 1920, quando o fascismo não existia, todos os dias se viam massas de trabalhadores nas ruas. Aqui uma greve, ali uma manifestação, agora um confronto armado direto. Hoje não há mais greves, não há mais agitações. Nas fábricas, o trabalho é ininterrupto, a paz e a ordem reinam. Esta é a opinião dos empresários.

No entanto, continuam a ser convocadas greves e têm-se registado incidentes notáveis no decurso das mesmas, resultantes da relação entre sindicatos fascistas, trabalhadores revolucionários, o governo e os empresários. A situação é decididamente instável. A luta de classes continua e mostra a sua presença com uma série de acontecimentos significativos; não há dúvida que, apesar de todos os obstáculos, continua a desenvolver-se. A ação do governo fascista é também dirigida contra os trabalhadores das empresas estatais. Por exemplo, contra os trabalhadores ferroviários é exercido um verdadeiro terror. Um grande número deles foi despedido. Naturalmente, os membros ativos das organizações revolucionárias foram eliminados em primeiro lugar: a organização dos ferroviários pertencia ao número de sindicatos cuja liderança estava muito à esquerda. O mesmo procedimento foi seguido em várias outras empresas dependentes do Estado.

Os fascistas retorquiram: mas demos ao proletariado uma grande conquista, o dia de 8 horas! Estabelecemos o dia de 8 horas por lei! Diga-nos outro governo burguês de um grande Estado que tenha promulgado tal lei!

Mas esta lei contém cláusulas de execução que mais uma vez anulam totalmente o princípio do dia de 8 horas. Com efeito, seria possível, aplicando-o fielmente à letra, introduzir um tempo médio de trabalho muito superior ao dia de 8 horas. Além disso, a lei não é aplicada. Com a aprovação dos sindicatos fascistas, os empresários fazem nas empresas o que bem lhes apetece. Finalmente, o proletariado em Itália já tinha ganho o dia de 8 horas com as suas organizações e várias federações tinham mesmo obtido um tempo de trabalho mais curto. Portanto, não é de todo um "presente" que o fascismo teria dado ao proletariado italiano. De facto, pode estabelecer-se que o desemprego está a aumentar porque nas fábricas os trabalhadores são forçados pelos patrões a trabalhar diariamente durante muito mais de 8 horas.

As outras "conquistas" nem merecem ser mencionadas. Os trabalhadores que anteriormente tinham garantido certos direitos, uma certa liberdade de movimento e agitação nas fábricas estão agora sujeitos a uma disciplina de ferro. O trabalhador italiano trabalha agora sob o terror do chicote.



Quanto à situação económica, todos os números disponíveis mostram que os salários baixaram enormemente após terem atingido temporariamente um nível correspondente ao aumento do preço dos bens essenciais, cujos preços são agora quatro ou cinco vezes mais elevados do que antes da guerra. O nível de vida dos trabalhadores tem vindo a deteriorar-se. É verdade que a "ordem" foi restaurada nas empresas, mas é uma ordem de reação, uma ordem no interesse geral da exploração pelos patrões. Há exemplos que dão provas tangíveis de que toda a ação dos fascistas, incluindo a dos seus sindicatos, está ao serviço dos empregadores do sindicato industrial.

No que diz respeito à organização dos marinheiros, esta, embora dirigida por oportunistas bem conhecidos como Giulietti (ou talvez por causa disso) tinha conseguido até certo ponto resistir ao poder fascista e sobreviver à marcha sobre Roma. Ao lado desta organização havia uma cooperativa de estivadores chamada "Garibaldi" que, para o novo contrato que estava prestes a ser assinado entre o governo e os armadores, planeava fazer ofertas muito substanciais. Isto significava uma concorrência perigosa para os grandes armadores. Teriam sido forçados a apresentar propostas menos lucrativas por conta própria. O que é que eles fizeram? O grupo de armadores, os reis da navegação, deu uma ordem ao governo fascista e o governo fascista apressou-se a executá-la: a pretexto de um conflito provocado pelas autoridades locais, enviou unidades policiais para ocuparem os escritórios da cooperativa e assim forçaram-na a parar as suas atividades.

A situação é muito complicada, mas o seu significado geral é o seguinte: é evidente que o aparelho estatal fascista está ao serviço dos grupos capitalistas que lutam contra a classe trabalhadora. Toda a vida do proletariado, toda a vida industrial em Itália oferece hoje o exemplo mais esmagador e a demonstração mais clara do facto de que a forma mais extrema de desenvolvimento de um governo no órgão executivo e no comité empresarial dos capitalistas teve lugar no nosso país. Os mesmos fenómenos devem ser assinalados no que diz respeito aos assalariados agrícolas. Cito como exemplo a greve liderada pela união fascista e levada a cabo nos campos de arroz do chamado "mondine" de Lomellina. Esta greve tinha sido proclamada com a aprovação do sindicato fascista, mas depois todo o terror da reação veio contra ela, os grevistas foram atacados pela polícia e pela milícia, ou seja, pelos órgãos do governo fascista, e a greve foi esmagada com muito derrame de sangue.

Há centenas de exemplos semelhantes, que dão uma imagem da situação em que o proletariado italiano se encontra hoje. A política sindical fascista permite que os trabalhadores façam a tentativa de conduzir lutas; mas assim que o conflito entre proletários e patrões eclode, o governo intervém com violência brutal no interesse da exploração capitalista.

Quais são as relações entre o Fascismo e a classe média? Toda uma série de factos fornece uma prova esmagadora do desapontamento da classe média. No início, estes viram no Fascismo o seu próprio movimento e o início de uma nova época histórica. Acreditavam que o tempo do domínio da grande burguesia e dos seus líderes políticos tinha chegado ao fim, mas que a ditadura proletária, a revolução bolchevique antes da qual tinham tremido em 1919 e 1920, ainda não estava à vista; acreditavam que o domínio da classe média, dos combatentes, dos que tinham lutado vitoriosamente na guerra, estava prestes a ter lugar; acreditavam que podiam criar uma organização poderosa para tomar as rédeas do Estado nas suas mãos. Queriam, para a defesa dos seus interesses, conduzir uma política própria e autónoma que se voltasse contra a ditadura capitalista, por um lado, e contra a ditadura proletária, por outro. A falência deste programa é demonstrada pelas medidas do governo fascista que atingiram duramente não só o proletariado mas também a classe média, que se gabam de ter criado o seu próprio poder, a sua própria ditadura e até se deixaram arrastar para manifestações contra o velho aparelho de governo burguês que acreditavam ter derrubado graças à revolução fascista. Com todas as medidas do governo, o fascismo mostra que está ao serviço da grande burguesia, do capital industrial, financeiro e comercial, e que o seu poder é dirigido contra os interesses de todas as outras classes; não só do proletariado, mas também das classes médias.

Por exemplo, as medidas de habitação afetaram todas as classes sem distinção. Durante a guerra tinha sido introduzida uma moratória que impunha aos proprietários de casas certas limitações ao aumento das rendas. Os fascistas aboliram-nas, dando assim aos proprietários a possibilidade de aumentar as rendas como bem lhes apetecia. É verdade que, tendo restabelecido uma liberdade ilimitada neste domínio, foram obrigados a promulgar uma nova lei limitando os direitos dos proprietários de casa. Mas esta nova lei é de natureza puramente demagógica. O seu objetivo é apenas apaziguar a ira que a primeira lei tinha suscitado. Até agora, a falta de habitações continua a ser enorme. O mesmo se aplica à reforma escolar, "a mais fascista de todas as reformas" como Mussolini lhe chamou, que foi preparada pelo conhecido filósofo Gentile. Estamos aqui perante uma reforma que, de um ponto de vista técnico, deve de facto ser levada a sério. A fim de o resolver com base nos novos critérios, foi feito um trabalho realmente notável. Mas toda a tendência da reforma é aristocrática: torna impossível uma boa educação para os filhos dos trabalhadores, os camponeses sem terra, os pequenos burgueses. Isto significa que apenas os ricos, ou seja, as famílias que podem pagar as propinas da escola secundária pelos seus filhos, terão o privilégio da cultura. É por isso que esta reforma tem sido recebida com grande descontentamento entre a classe média e a pequena burguesia, e mesmo entre professores e professores, cujas condições económicas também pioraram e que estão sujeitos a uma disciplina mais rigorosa.

Outro exemplo: para resolver o problema da reforma da burocracia, o fascismo procedeu a uma revisão dos salários dos funcionários do Estado de acordo com o princípio: diminuição dos salários mais baixos e aumento dos salários dos funcionários superiores. Esta reforma, também provocou no pessoal subordinado da burocracia estatal um clima de descontentamento com o governo fascista.

Acrescente-se a isto a questão dos impostos, que não pode ser tratada aqui em profundidade, mas que demonstra claramente o carácter de classe do governo fascista. Isto pretendia restabelecer o equilíbrio do orçamento. Mas, para este fim, não tomou medidas contra os capitalistas. A fim de aumentar as receitas, simplesmente aumentou os encargos para o proletariado, os consumidores, a classe média e a pequena burguesia.

Uma das principais causas de descontentamento com o fascismo reside no seu tratamento da população agrícola, dos pequenos agricultores rendeiros, etc.

O fascismo é o inimigo do proletariado industrial, mas trouxe um agravamento igualmente notável das condições da classe camponesa. Os governos anteriores já tinham dado disposições para a regulamentação da tributação da terra, mas estas nunca tinham sido aplicadas. O ministro fascista De Stefani previu agora isto de uma forma tão draconiana que uma carga fiscal mesmo insuportável é imposta a toda a pequena propriedade fundiária, e mesmo aos rendimentos dos pequenos agricultores, inquilinos e trabalhadores agrícolas. É piorado ainda mais pelos impostos municipais e provinciais, que uma vez as administrações socialistas locais tinham manobrado numa direção anti-capitalista e favorável aos trabalhadores. Hoje, no entanto, os impostos sobre o gado e outros impostos tornam as condições dos pequenos agricultores mais difíceis do que nunca. Recentemente tem havido uma ligeira diminuição do imposto sobre o vinho, uma diminuição destinada a atenuar os picos de descontentamento no campo. Mas todos estes impostos representam, agora como antes, um fardo terrível para a população agrícola.

Vou apenas dar o exemplo de um colega da delegação italiana que é ele próprio um pequeno agricultor. Por uma área de 12 hectares, que em parte possui e em parte aluga, tem de pagar 1.500 liras de uma receita de 12.000 liras, ou seja, 12,5%. É fácil deduzir o que se teria de espremer para fora da terra para garantir a existência da família e do pessoal que ele emprega!

No sul, ocorreu um fenómeno notável. O ano passado, a colheita correu muito bem. Os preços baixaram enormemente, e este ano o vinho está a ser vendido a preços baixíssimos. Os inquilinos, que lá são muito numerosos, declaram que já não obtêm qualquer lucro. De facto, onde, além da vinha, se cultiva outra coisa, os arrendatários contam geralmente com este outro cultivo para cobrir os custos de produção, enquanto a viticultura lhes proporciona o rendimento em que vivem. Mas, com o preço atual do vinho, com os impostos e custos de preparação do vinho, etc., não lhes resta nada. Os custos de produção e os preços de venda são iguais; o agricultor só tem de prover ao seu consumo e ao consumo da sua família. Foi assim forçado a endividar-se, a pedir adiantamentos à pequena burguesia dos centros rurais ou aos grandes latifundiários e, neste último caso, a contrair hipotecas sobre as suas terras. No período imediato do pós-guerra, os aumentos de renda foram proibidos por lei. Esta lei foi abolida pelos fascistas; hoje, os pequenos inquilinos têm de pagar rendas aumentadas de 100 a 400% aos proprietários de terras. Mesmo as cláusulas relativas à divisão da colheita entre senhorios e arrendatários foram decisivamente alteradas em detrimento destes últimos. Para viver, o pequeno proprietário é obrigado a vender uma parte das suas terras, ou a desistir da parcela que tinha comprado contra o pagamento imediato em dinheiro de metade do preço de compra e o pagamento diferido da outra metade. Se não puder pagar hoje, perde imediatamente tanto a terra que comprou como o dinheiro que já pagou. Uma expropriação real e adequada dos pequenos proprietários é o que está a acontecer. Estes, que no período pós-guerra tinham pago preços elevados pela terra, hoje, não tendo ativos líquidos, são forçados a vendê-la a preços mais baixos. Repito que se trata de uma verdadeira expropriação de pequenos proprietários pelos grandes, um fenómeno que tende a tornar-se cada vez mais generalizado. Todas as medidas do governo fascista neste domínio tiveram como único resultado o agravamento das condições do proletariado agrícola.

Em tempos, os Socialistas conduziram uma agitação cujo método não pôde concordar plenamente connosco: procuraram que o governo realizasse obras de recuperação de terras em grande escala para empregar trabalhadores agrícolas e assalariados e para combater o desemprego, aliviando o mercado de trabalho no campo. O governo fascista suspendeu agora estas obras a fim de restabelecer o equilíbrio do orçamento. Um grande número de trabalhadores agrícolas foi assim atirado para o mercado de trabalho, a miséria no campo aprofundou-se e as condições de existência do proletariado deterioraram-se ainda mais.

O descontentamento virou-se diretamente contra o governo. Os fascistas não se calam sobre o parasitismo das antigas cooperativas vermelhas, que através da pressão parlamentar para obras públicas, exploravam sistematicamente o Estado, mas, hoje em dia, fazem exatamente o mesmo. Eles tentam, com as suas cooperativas fascistas (quase todo o aparelho cooperativo dos socialistas passou, à força, às suas mãos), conduzir uma política semelhante no interesse da nova burocracia fascista.

As condições em que o fascismo lançou os camponeses são tais que hoje esta classe reconhece no governo fascista um poder hostil aos seus interesses, e assume gradualmente uma posição de luta face ao mesmo. Já existem exemplos de revoltas camponesas armadas contra a tributação e contra as administrações municipais fascistas, que conduziram a confrontos sangrentos. Este é um facto extremamente importante que caracteriza bem a situação.

Depois destas observações sobre a política social do fascismo, vemos outras áreas, e antes de mais à política do fascismo no domínio da religião. A atitude do fascismo nesta matéria é um exemplo da sua mobilidade teórica. Originalmente, a fim de explorar certos humores tradicionais da classe média e intelectuais, o fascismo tinha-se dotado de um programa anti-clerical, combatendo assim o Partido Popular Católico para minar a sua influência no campo. Num segundo período, o Fascismo entrou em competição com o Partido Popular e tornou-se o partido oficial da religião e do catolicismo. Este é um facto notável de um ponto de vista histórico e teórico. O Vaticano conduziu uma política pró-fascista. Aceitou com satisfação as concessões que o governo fascista lhe fez, melhorando as condições do clero e restabelecendo o ensino da religião nas escolas. Mussolini, que costumava ser editor na Suíça de uma pequena biblioteca anti-religiosa – uma biblioteca de panfletos rascos em que foi demonstrada a inexistência de Deus e em que se podia ler sobre os erros dos papas, a história da mulher eleita para o trono papal e todos os outros disparates com que, durante muitos séculos, os cérebros dos trabalhadores foram enevoados – o mesmo Mussolini invoca hoje, quando lhe parece oportuno, o Pai Eterno e proclama governar a Itália "em nome de Deus".

O oportunismo político do Vaticano, no entanto, encerra um antagonismo fundamental que aparece, em vez disso, à luz clara entre os fascistas e o Partido Popular (que representa uma espécie de democracia cristã): a ideia católica enquanto tal opõe-se ao fascismo, porque o fascismo representa uma exaltação da pátria, da nação, uma deificação da mesma, que, do ponto de vista católico, é uma heresia. O fascismo gostaria de fazer do catolicismo um assunto nacional italiano. Mas a Igreja Católica executa fundamentalmente uma política internacional e universalista para estender a sua influência política e moral acima de todas as fronteiras. Este contraste extremamente significativo foi, de momento, resolvido por compromisso.

Passemos agora brevemente à política externa fascista. Os fascistas afirmam ter encontrado a Itália, do ponto de vista da política internacional, numa situação extremamente desfavorável; antes era uma piada internacional, mas depois do fascismo chegar ao poder, desde que a Itália teve um governo forte, é tratada de forma bastante diferente e a sua posição nos assuntos internacionais mudou profundamente.

Os factos, porém, mostram que a política externa do fascismo só pode continuar a velha tradição da burguesia italiana. Materialmente nada mudou, nada de novo interveio. Tendo jogado a sua carta principal com o famoso incidente de Corfu, Mussolini renunciou imediatamente a tais golpes de estado, voltou à razão e foi bem recebido nas fileiras da diplomacia ortodoxa, tendo o cuidado para não voltar a repetir noutros assuntos o mesmo erro. Os grandes jornais franceses e ingleses escrevem que Mussolini é um político muito hábil, e que, após a expedição de Corfu, que foi uma espécie de birra infantil, ele tornou-se muito sábio e prudente. Na realidade, a política internacional de Mussolini é hoje a única que pode ser feita em Itália, uma política de segunda ordem, porque na luta das grandes potências mundiais a Itália desempenha um papel subordinado. Na questão das reparações e no conflito franco-alemão, Mussolini tomou sempre uma atitude intermédia que não exerceu qualquer influência, de uma forma ou de outra, sobre o equilíbrio de poder existente. A sua atitude oscilante foi agora saudada pela Alemanha, agora pela França e agora pela Grã-Bretanha.

É verdade que o fascismo foi capaz de modificar, ou mesmo de inverter, a relação de forças dentro das fronteiras italianas. Mas não podia repetir o jogo à escala internacional, porque não tinha influência nas relações entre Estados. Na ausência dos pressupostos históricos e sociais necessários, não é hoje possível falar seriamente do imperialismo italiano.

Alguns factos realçam a extrema modéstia a que Mussolini foi forçado na sua política externa. A questão do Fiume foi resolvida por meio de um compromisso com a Jugoslávia. As ameaças de guerra contra a Jugoslávia deram lugar a uma política de compromisso e reconciliação com este país. Também aqui, o nacionalismo imperialista teve de se curvar perante os factos da realidade da política externa. Mesmo o reconhecimento da Rússia soviética mostra que é muito possível conduzir uma política de extrema direita em Itália, mas que o facto de os fascistas terem tomado o poder não é suficiente para conduzir esta política também no plano internacional.

Que impressão causou o reconhecimento da Rússia soviética no proletariado italiano? O proletariado italiano tem uma educação revolucionária bastante boa, e não mordeu o isco das manobras da imprensa fascista, que até àquele dia recolheu todas as calúnias contra os bolcheviques, todos os contos de fadas sobre a Rússia, e de repente, sob comando, começou a escrever tudo o contrário: ou seja, que já não se trata de uma revolução comunista, que o bolchevismo é liquidado e que a Rússia é um país burguês como qualquer outro, que existem interesses comuns entre a Itália e a Rússia, que a Rússia e a Itália podem muito bem colaborar, etc. Foi também feita uma tentativa grosseira de dizer: estamos perante duas revoluções, duas ditaduras, dois exemplos do mesmo método político de eliminação da democracia, que pela sua natureza deve chegar a uma ação paralela, etc. Tudo o que esta explicação suscita é riso. Trata-se na realidade de interesses capitalistas muito precisos: não tendo conseguido evitar o desenvolvimento desfavorável da indústria no domínio do comércio externo, a fim de encontrar novos mercados de escoamento os capitalistas italianos tinham interesse em entrar em relações com a Rússia. O proletariado italiano julgou este evento como prova da fraqueza do fascismo, não da Rússia soviética. Contudo, devo salientar que a interpretação política correta deste acontecimento internacional de importância fundamental por parte do proletariado italiano foi perturbada por um incidente desagradável, alguns camaradas russos fizeram declarações que foram longe demais na explicação deste ato político e que continham declarações de amizade para com a Itália, que podiam ser interpretadas como declarações de amizade para com a Itália oficial, para com o Grão-Ducado Mussolini, algo que deve ter necessariamente causado um certo mal-estar no proletariado perseguido e perseguido pelos fascistas. Se este falso desonesto tivesse sido evitado, todo o resto teria tido lugar com a plena compreensão política do proletariado revolucionário italiano.

Passamos agora às relações entre o aparelho do partido fascista e o aparelho do estado sob o novo governo. Estas relações levantaram problemas muito complicados que resultaram numa grave crise e em contrastes contínuos nas próprias fileiras do Fascismo. A vida interna das organizações fascistas foi, desde o início, muito agitada. Afinal de contas, é uma organização muito grande que abrange 700.000 pessoas organizadas, e numa tal organização os conflitos são naturalmente inevitáveis. Mas a amargura e a violência dos contrastes internos do movimento fascista em Itália são excecionais. No início, o problema das relações entre partido e Estado foi resolvido de uma forma muito deficiente, colocando lado a lado com os comissários políticos das autoridades estatais retirados das fileiras do partido, que exerciam uma certa influência sobre os funcionários do Estado e, portanto, tinham o poder a sério nas suas mãos. A fricção seguiu-se naturalmente. Este método de organização foi então revisto e os antigos direitos tiveram de ser restituídos ao aparelho do Estado, eliminando os comissários fascistas. Mas a crise, que tinha sido superada apenas com grande dificuldade, não foi resolvida definitivamente, porque duas correntes tinham-se formado dentro do movimento fascista: uma, que tendia para a revisão do fascismo extremista, queria voltar à legalidade e declarou: Temos o poder nas nossas mãos, temos o nosso grande líder político Mussolini, agora podemos limitar-nos a governar através do exercício normal e legal do poder; todo o aparelho de estado está à nossa disposição, formamos o governo, o nosso Duce goza da confiança de todos os partidos; por isso o partido já não precisa de se intrometer diretamente nos assuntos administrativos. Esta corrente gostaria de renunciar à luta violenta, ao uso de meios de força ilegais, e de regressar a relações normais. Procura atrair Mussolini para si próprio, isolando-o dos elementos fascistas extremos.

Estes elementos extremistas recrutam-se no campo das hierarquias locais, e são designados pelo termo abissiniano "Ras". O "rassismo" favorece a ditadura local das tropas de ocupação fascistas em toda a Itália, de facto para uma "segunda onda" de terror contra todos os adversários. Um dos seus representantes característicos é o deputado Farinacci, que recentemente propôs mesmo a pena de morte para os anti-fascistas.

Entre estes dois extremos, entre a tendência que exige uma "segunda onde" da violência contra a oposição, que diz: se Mussolini diz que a revolução ainda não está completa, então deve ser completada, então deve ser ordenada imediatamente (como eles dizem) "cinco minutos de fogo para aniquilar definitivamente todos os inimigos do Fascismo" – e o outro, que gostaria de uma aproximação entre o Fascismo e certos elementos da oposição e mesmo reformistas do tecido dos líderes da Confederação do Trabalho, Mussolini tem mantido até agora um certo equilíbrio com concessões hábeis agora para um, agora para o outro. Restaurou os antigos direitos aos funcionários do aparelho de Estado, mas não pretende desistir como ponto de apoio às organizações independentes do aparelho de Estado, sobre o qual assenta a força do fascismo e a sua possibilidade de defesa contra ataques revolucionários.

O fascismo não dissolveu o parlamento. A velha câmara, como já foi dito, votou repetidamente na confiança em Mussolini, concedeu-lhe plenos poderes e ainda mais tudo o que ele pediu. No entanto, o fascismo queria alterar a lei eleitoral. Em Itália, o sistema proporcional estava em vigor. O fascismo desejava assegurar uma maioria. Na minha opinião, isto também teria sido possível com o mecanismo do antigo sistema eleitoral. Mesmo com o sistema proporcional, o Fascismo teria obtido, de acordo com o número de votos, o que obteve hoje. Nos termos da nova lei eleitoral, a lista partidária que reúne em si a maioria dos votos e que obtém pelo menos um quarto dos votos totais no país, tem direito, automaticamente, a dois terços dos assentos no novo parlamento. Isto significa que um quarto dos votos efetivos é suficiente para ocupar dois terços dos lugares, desde que outra lista não atinja 26 ou 27% do total de votos; neste caso, o prémio maioritário iria para esta última lista. Havia 375 nomes na lista maioritária nacional. Na realidade, portanto, estes deputados foram eleitos pelo próprio Mussolini, pois ele tinha a certeza de que a lista iria obter mais de 25% dos votos. Para a nomeação estalou uma verdadeira batalha no seio do partido fascista. Cerca de 10.000 Ras fascistas tinham a ambição de pertencer aos 375 eleitos. Nem sequer tinham sido capazes de reservar todos os lugares na lista de candidatos para os fascistas.

As táticas eleitorais utilizadas foram dúplices. No norte, onde as organizações fascistas são muito fortes, qualquer compromisso foi rejeitado, foram apresentadas listas compostas exclusivamente por membros do partido fascista. No sul, onde a organização fascista é muito mais fraca, foi forçado um compromisso com certas personalidades políticas do antigo regime, e foi-lhes dado bastante espaço na lista nacional. Desta forma, os candidatos tornaram-se em parte homens novos das fileiras do Partido Fascista e em parte, digamos, um certo número de personalidades políticas tradicionais.

As eleições tiveram lugar. Não as discutirei em pormenor. É bem sabido que o terror fascista não chegou ao ponto de tornar completamente impossível o exercício do direito de voto pela oposição. O governo fascista manobrou com alguma habilidade, porque se sabia que ao eliminar todas as possibilidades de voto para a oposição, as eleições perderiam imediatamente todo o significado político. O governo apenas influenciou, portanto, os resultados no seu próprio interesse. Mussolini diz agora que "as eleições tiveram lugar". A "enorme maioria votou em nós; este consentimento da enorme maioria do povo italiano legaliza o nosso poder. Já não se pode falar da regra de uma minoria".

Ao julgar o percurso e os resultados das eleições, deve ser feita uma distinção clara entre o norte e o sul de Itália. No norte, o fascismo tinha organizações muito fortes, especialmente no campo, mas também nas cidades industriais. Aqui, poderia monitorizar os seus eleitores e controlar os membros do partido para votarem de acordo com as ordens, ou seja, suprimir quase totalmente o sigilo eleitoral. Claro que os fascistas lutaram implacavelmente contra os seus oponentes, mas no final tiveram de os deixar exercer o seu direito de voto, porque contavam com a sua própria força. Assim, no Norte, o fascismo obteve uma maioria muito fraca, ou seja, uma maioria no sentido próprio, uma maioria no sentido de mais de 50%; não estou a falar aqui, claro, da maioria artificial de 25% que tinha sido estabelecida. Em algumas cidades, tais como Milão, é bem conhecido que a lista nacional fascista permaneceu em minoria em relação às listas da oposição.

No Sul, no entanto, reuniu em torno da sua lista uma poderosa maioria de votos. O número total de votos efetivos em toda a Itália foi de 7,3 milhões; os fascistas obtiveram 4,7 milhões; agora metade do total de votos é de 3,65 milhões, pelo que os fascistas ultrapassaram esta metade em cerca de um milhão. Este é o aspeto mais estranho da questão.

Com exceção dalguns distritos, onde os conflitos agrários tiveram lugar de forma semelhante aos do vale do Pó, no Sul nunca houve um verdadeiro fascismo. O fascismo tomou ali lugar da seguinte forma: após os fascistas terem tomado o poder, as cliques burgueses locais acharam sensato juntar-se formalmente ao fascismo para manter o aparelho administrativo nas suas mãos e continuar a explorá-lo. No Sul não existe uma organização fascista séria; no entanto, foi no Sul, por meios muito simples, que a grande maioria acima referida foi obtida. Aqui as eleições foram realizadas à vontade; os representantes das listas da oposição foram expulsos, foram organizados esquadrões fascistas, foram-lhes fornecidos certificados eleitorais disponibilizados pelas administrações municipais, e cada membro destes esquadrões votou 30, 40 até 50 vezes. Nestas circunstâncias, Mussolini foi forçado a fazer a afirmação extraordinária que o Sul de Itália tinha salvado a pátria, que no Sul estariam prontas as forças mais ferozes para a luta contra a democracia revolucionária, que em 1919 e 1920 o Sul não se tinha deixado enganar, etc., etc. Desviou assim toda a sua interpretação política anterior da situação italiana, nomeadamente, que o Norte era a parte mais avançada e civilizada do país, o apoio mais sólido do Estado. Nos seus últimos discursos, é verdade, regressa a esta velha teoria e esquece, ao que parece, de pôr as suas palavras em consonância com o significado dos resultados estatísticos e oficiais das sondagens. No Sul, o fascismo é muito fraco; de facto, pode dizer-se que, no caso Matteotti, o Sul se pronunciou com absoluta unanimidade contra o governo. Este facto importante demonstra os meios artificiais pelos quais o Fascismo se mantém no poder.

Mais algumas palavras sobre os outros partidos que participaram nas eleições. Antes de passar aos partidos pró-fascistas, quero mencionar o Partido Nacionalista, que está agora oficialmente fundido em todos os aspetos com o Partido Fascista. O partido nacionalista já existia muito antes de se falar de fascismo; exerceu uma grande influência no desenvolvimento deste último e foi ele que lhe deu o pouco armamento teórico que tem à sua disposição. Mesmo a ala direita dos liberais, liderada por Salandra, está completamente unida ao fascismo; os seus membros eram candidatos da lista fascista; outras personalidades e grupos "liberais", não incluídos nas listas fascistas, apresentaram listas paralelas puramente fascistas, a fim de conseguir, se possível, alguns dos lugares reservados para a minoria.

A par das listas oficiais e destas listas paralelas existiam listas liberais não oficialmente apoiadas pelo governo e outras, como a de Giolitti, que não eram abertamente anti-fascistas e em que o governo, mantendo uma atitude neutra em relação a elas, lhes permitia ganhar lugares sem os combater.

Quanto à oposição, devemos antes de mais sublinhar a derrota dos partidos parlamentares, nos quais a "democracia", outrora tão forte em termos de número de deputados, foi dividida. Bonomi (um reformador social-democrata de extrema-direita) não foi reeleito. Di Cesare e Amendola, na sequência da amarga luta que o governo tinha travado contra este último, salvou apenas um pequeno grupo de aderentes.

O Partido Popular também sofreu uma séria derrota. Na antiga Câmara, tinha mesmo participado no governo fascista; a sua atitude tinha sido sempre equívoca, e só através da sua luta contra a nova lei eleitoral é que a tinha quebrado abertamente com Mussolini, que depois se livrou dos ministros populares. A crise que se abriu em consequência disso obrigou o chefe do partido, Don Sturzo, a demitir-se oficialmente do seu cargo; mas, na realidade, ele continuou a dirigir a política do partido. O resultado foi uma espécie de cisão. Um grupo de direita, os Populares Nacionais, separou-se do partido e ficou do lado da lista fascista. A missa do partido segue Don Sturzo como antes. A extrema-esquerda liderada por Migliori também se separou; característica desta última é a agitação que conduzia no campo e que, por vezes, se aproximava da das organizações revolucionárias. Dentro do partido, a influência dos grandes latifundiários sob a forma do centrismo mediador de Don Sturzo manteve-se prevalecente. Mas o movimento Popular sofreu um golpe forte.

Outro pequeno partido notável que participou nas eleições é o Partido dos Camponeses, que apresentou as suas próprias listas em dois ou três círculos eleitorais. Este partido é composto pelos pequenos camponeses insatisfeitos que não quiseram confiar a representação dos seus interesses a nenhum dos partidos existentes, e preferiram formar um partido autónomo. Pode ser que este movimento tenha um futuro. Talvez esteja destinado a ganhar importância nacional. O pequeno partido republicano, que deve ser considerado, em parte, como um partido proletário, tem uma atitude bastante confusa, mas conduz contra o governo fascista uma oposição bastante enérgica. Ganhou dois lugares no parlamento: na antiga câmara tinha 5 deputados e agora tem 7.

Depois há os três partidos que se desenvolveram a partir do antigo Partido Socialista tradicional; o Partido Socialista Unido, o Partido Socialista Maximalista, e o Partido Comunista. É notório que estes partidos, quando ainda estavam unidos num só partido, ocupavam juntos 150 lugares. Hoje os unitários (reformistas) têm 24, os maximalistas 22, e os comunistas 19. Os comunistas tinham apresentado uma lista comum com a fração terceira-internacionalista do partido maximalista sob a bandeira da unidade proletária. Pode dizer-se que o Partido Comunista é o único de todos os partidos da oposição que não só regressou ao parlamento na sua força anterior, como ganhou novos lugares. Em 1921 tínhamos 15; hoje temos 19. É verdade que um mandato ainda é contestado e talvez permaneçamos 18, mas isto é detalhe irrelevante.

Para além das pequenas listas irredentoras de alemães e eslavos anexas a Itália, existe um partido Sardo, nascido há alguns anos na Sardenha, que exige, se não a separação completa da Itália, pelo menos um longo período de autonomia regional. É um movimento que visa a descentralização do Estado, a um distanciamento considerável do Estado italiano e da nação italiana, e que conduzirá talvez a movimentos paralelos noutras regiões que se encontram numa situação pior. Parece que na Basilicata está a ser formada um partido semelhante. O movimento tem também alguma relação com o movimento puramente intelectual de Turim que publica, com base em teorias liberais e parcialmente federalistas, a revista Rivoluzione Liberale. Este grupo conduz uma oposição enérgica contra o fascismo, e tem reunido em seu redor vários simpatizantes dos estratos de intelectuais e profissionais. Como se pode ver, a oposição está dividida num grande número de pequenos grupos. Vale também a pena mencionar algumas correntes políticas que não levaram a cabo ações eleitorais.

Há, por exemplo, o movimento dirigido por D’Annunzio, ou seja, uma pequena elite que se reúne em torno de D’Annunzio e aguarda o sinal do seu líder para agir. Mas em tempos recentes a atitude de D’Annunzio tem sido bastante contraditória. Há já algum tempo que tem estado em silêncio. O seu movimento cresceu a partir do movimento original das classes médias e dos veteranos que não queriam submeter-se à mobilização oficial da grande burguesia e que – vendo que o fascismo renegou o seu programa e se moveu numa direção claramente conservadora – se retirou do mesmo. Houve também o movimento "Itália Livre", ou seja, a oposição antifascista no seio da organização do Partido dos Combatentes, cuja influência tendia agora a crescer consideravelmente. Outro movimento anti-fascista a trabalhar intensamente é a Maçonaria. As pousadas maçónicas passaram por uma grave crise face ao fascismo. Houve mesmo uma cisão, que não foi de grande importância: foi feita uma tentativa de separar da Maçonaria um pequeno grupo de oposição que se tinha declarado pró-fascista.

Os fascistas levaram a cabo uma campanha contra os Maçons Livres. O Mussolini fascista impôs a mesma decisão sobre incompatibilidade com a Maçonaria pela qual tinha lutado quando era socialista em 1914. A maçonaria não tem falhado em responder vigorosamente a estes ataques. Realizou no estrangeiro no círculo da burguesia, uma notável obra de esclarecimento contra o fascismo através da sua propaganda contra o terror fascista. Também em Itália, está em curso um trabalho de esclarecimento entre a pequena burguesia e os intelectuais, em cujos círculos os maçons são muito influentes; e tem uma certa importância.

O movimento anarquista não desempenha hoje um papel importante na política italiana. Como podemos ver, as várias correntes de oposição à poderosa maioria fascista oferecem um quadro muito complicado.

Mas o que significa esta oposição, mesmo que represente uma certa força na imprensa, no terreno da organização política militar, ou seja, no que respeita à possibilidade prática de um ataque contra o fascismo num futuro previsível? Aqui representa quase nada. É bem verdade que certos grupos, tais como os Republicanos e os Maçons, gostariam de fazer crer que possuem de facto uma organização anti-fascista ilegal. Mas estes são rumores que não devem ser levados a sério. O que deve ser levado a sério é apenas a forte corrente de oposição na opinião pública e na imprensa. A oposição burguesa tem uma imprensa bastante importante, e certos órgãos de imprensa que circulam amplamente em Itália adotam uma atitude que – embora não abertamente oposicionista – no entanto se volta inequivocamente contra o fascismo. Assim, o "Corriere della Sera" de Milão e o "Stampa" de Turim influenciam a opinião pública especialmente na classe média no sentido de uma oposição tenaz mas não barulhenta. Tudo isto prova que o descontentamento com o fascismo tinha crescido após a tomada do poder.

Embora seja difícil definir e classificar claramente os diferentes grupos de oposição, é contudo possível traçar uma linha de demarcação muito clara entre o estado de espírito do proletariado e o da classe média.

O proletariado é anti-fascista com base na sua consciência de classe; vê na luta contra o fascismo uma poderosa batalha destinada a inverter radicalmente a situação e substituir a ditadura da revolução pela ditadura do fascismo. O proletariado quer a sua vingança, não no sentido trivial e sentimental da palavra; quer a sua vingança no sentido histórico.

O proletariado revolucionário compreende por instinto que o facto da ascensão e domínio das forças de reação deve ter a sua resposta na contra-ofensiva das forças da oposição; o proletariado sente que só através de um novo período de duras lutas e – em caso de vitória – através da ditadura proletária é que o estado de coisas pode ser radicalmente alterado. O proletariado espera por este momento para devolver ao inimigo de classe os golpes que hoje é forçado a sofrer, com uma energia dez vezes superior àqueles que agora sofre.

O antifascismo da classe média tem um carácter menos ativo. É, é verdade, uma oposição forte e sincera, mas na base desta oposição está uma orientação pacifista: eles gostariam do fundo do coração de restabelecer uma vida política normal em Itália, com total liberdade de opinião e de discussão... mas sem levar golpes do bastão, sem o uso da violência. Tudo deve voltar ao normal, tanto os fascistas como os comunistas devem ter o direito de professar as suas convicções. Esta é a ilusão das classes médias, que aspiram a um certo equilíbrio de forças e à liberdade democrática.

Deve ser feita uma distinção clara entre estes dois estados de espírito nascidos do descontentamento com o fascismo em Itália. A segunda apresenta dificuldades para a nossa ação, que não devemos subestimar.

Mesmo entre a burguesia, no sentido estrito da palavra, reina hoje a dúvida quanto à expediência do movimento fascista. Estas preocupações são exprimidas por órgãos de imprensa como aqueles dois à acima mencionados, que são o porta-voz desta burguesia. Perguntam-se: é este o método correto? Não será exagerado? No interesse dos nossos objetivos de classe, temos um certo aparelho que se destinava a satisfazer certas necessidades. Mas não irá para além das funções que lhe atribuímos e dos objetivos que estabelecemos para nós próprios? Não será obrigado a fazer mais do que é bom? Os estratos mais inteligentes da burguesia italiana são a favor duma revisão do fascismo e dos seus desvios reacionários, por medo de que estes conduzam necessariamente a uma explosão revolucionária. Evidentemente, é do interesse expresso da burguesia que estes estratos da classe dominante conduzam uma campanha na imprensa contra o fascismo, a fim de o trazer de volta ao terreno da legalidade, para o tornar uma arma mais segura e mais flexível de exploração da classe trabalhadora. São a favor da política astuta de concessões aparentes ao proletariado, ao mesmo tempo que expressam o seu entusiasmo pelos resultados do fascismo, pelo restabelecimento da ordem burguesa e pela salvação da sua fundação, a propriedade privada. Estes estados de espírito, no entanto, têm um grande peso.

Por exemplo, o senador Agnelli, o diretor da maior empresa automóvel italiana e o capitalista mais poderoso de Itália, é um liberal. Mas quando, como aconteceu a alguns dos nossos camaradas, se sobrestima este facto, depara-se imediatamente com a reação dos trabalhadores da Fiat, que nos asseguram que reina exatamente a mesma reação nas fábricas da Fiat que noutras fábricas sob a direção de capitalistas que pertencem pessoalmente ao partido fascista. Agnelli, afinal, é um magnata inteligente; ele sabe que seria perigoso provocar as massas trabalhadoras; lembra-se dos momentos infelizes por que passou quando os trabalhadores ocuparam as suas oficinas e hastearam a bandeira vermelha sobre elas; por isso dá conselhos benevolentes ao Fascismo para que este possa conduzir a luta contra o proletariado de uma forma mais inteligente. Evidentemente, o fascismo não é surdo a tais conselhos.

Antes do caso Matteotti, o Fascismo tinha tomado o caminho para a esquerda. Na véspera do assassinato de Matteotti, Mussolini proferiu um discurso no qual, dirigindo-se à oposição, disse: "Vocês formam a nova Câmara. Não teríamos precisado de eleições; poderíamos ter exercido o poder ditatorial, mas queríamos dirigir-nos ao povo de qualquer forma, e hoje em dia, é preciso reconhecer que o povo nos deu em resposta o seu total apoio, uma maioria esmagadora". Foi o próprio Matteotti que o contestou ao declarar que, do ponto de vista democrático e constitucional, o fascismo tinha sido derrotado, que o governo tinha sido derrotado, que a sua maioria era artificial e enganosa. Claro que o Fascismo não reconheceu isto. Mussolini argumentou: “De acordo com os números oficiais, temos a maioria. Falo agora para a oposição. Há duas maneiras de fazer uma oposição. Primeiro: a maneira comunista. Não tenho nada a dizer-lhes. São completamente lógicos. O objetivo deles é derrubar-nos um dia com violência revolucionária e estabelecer a ditadura do proletariado. Nós respondemos-lhes: só cederemos contra uma força superior. Querem arriscar uma luta connosco? Muito bem! Aos outros grupos da oposição dizemos: o uso da violência revolucionária não está contemplado no vosso programa: não estão a preparar uma insurreição contra nós; o que é que procuram então? Como pretendem tomar o poder? A lei dá-nos cinco anos como legislador desta Câmara. As novas eleições dar-nos-iam o mesmo resultado. O melhor, portanto, é chegar a um acordo. Talvez tenhamos ido longe demais, talvez tenhamos ultrapassado a marca. Utilizámos métodos ilegais que estou a tentar suprimir. Peço-vos que colaborem! Façam propostas, exponham as suas ideias! Encontraremos uma via intermédia.” Foi um apelo à colaboração com todos os grupos de oposição não revolucionários. Apenas os comunistas foram excluídos da oferta de Mussolini. Afinal, ele declarou que seria possível um entendimento com a CGIL, porque isto não estava no terreno da teoria demagógica da revolução, porque o bolchevismo seria liquidado até lá, etc.

Foi assim que as coisas ficaram. Esta atitude de Mussolini mostra a força em que a oposição antifascista se tinha tornado. O governo viu-se forçado a virar-se para a esquerda. Mas depois caiu a bomba proverbial. O caso Matteotti alterou completamente a situação em Itália. Os factos são bem conhecidos: um dia, o deputado Matteotti desapareceu. Durante dois dias, a sua família esperou em vão pelo seu regresso. Depois voltaram-se para a polícia. A polícia alegou não saber de nada. Após os jornais terem levado a notícia do desaparecimento de Matteotti, algumas testemunhas oculares disseram tê-lo visto ser atacado na rua por cinco indivíduos e carregado para um carro que se afastou imediatamente a grande velocidade.

A opinião pública estava em alvoroço. Talvez Matteotti estivesse a ser mantido prisioneiro, talvez não passasse de um regresso ao terror individual. Foi só isso, ou algo pior? Talvez um assassinato?

O governo foi pressionado a responder. Mussolini declarou imediatamente: "Vamos procurar os culpados.” Foram feitas algumas detenções, mas não demorou muito até se tornar claro que Matteotti tinha sido morto por membros de um bando fascista em ligação com a organização terrorista do partido. Os fascistas tomaram imediatamente esta atitude: é um ato infeliz pela corrente ilegal que estamos a combater e contra a qual Mussolini passa o tempo a zangar-se. Este é um ato individual, um crime comum. Tomaremos medidas contra os culpados. Mas a opinião pública não ficou satisfeita. Toda a imprensa apressou-se a mostrar que a iniciativa do crime não podia ser puramente pessoal, que os assassinos faziam de facto parte de uma liga secreta, uma espécie de bando negro, que já noutras ocasiões tinha cometido crimes semelhantes; crimes que tinham ficado impunes porque não tinham as mesmas consequências como o assassinato de Matteotti. Um número maior e maior de pessoas foi acusado. As pessoas começaram a atacar membros do regime. Ficou provado que o carro em questão tinha sido fornecido pelo órgão fascista-extremista "Corriere Italiano". Um membro da direção dos quatro, Cesare Rossi, é acusado; o subsecretário do interior, Aldo Finzi, é acusado. Seguem-se várias detenções de personalidades fascistas. Os anti-fascistas conduzem uma violenta campanha de imprensa.

Coloca-se a questão: quem é responsável pelo homicídio? Porque não há dúvida de que se trata de um homicídio, embora o corpo ainda não tenha sido encontrado. Estamos a lidar com um crime de fanatismo político, um crime político, uma vingança pelo discurso de Matteotti no hemiciclo contra o fascismo? Ou será isto um mero erro dos órgãos executivos? Esta última hipótese, na minha opinião, não está de modo algum excluída. É possível que Matteotti fosse mantido prisioneiro durante alguns dias, mas depois, como resultado da sua resistência, foi morto pelos bandidos que o tinham raptado. Ou é algo ainda mais suspeito? Diz-se que Matteotti possuía certos documentos sobre a corrupção pessoal de toda uma série de membros do governo fascista, e que os queria publicar. Talvez fosse para ser eliminado por esta razão? Mas esta hipótese não é muito provável. Matteotti certamente não teria cometido a imprudência de transportar tais documentos, e mesmo que o tivesse feito, teriam sem dúvida existido cópias. No entanto, durante a campanha de imprensa, foi assegurado que o Ministério do Interior tinha-se tornado um estabelecimento comercial em que capitalistas italianos e estrangeiros podiam comprar qualquer concessão ao governo. Falou-se de grandes somas a serem levantadas por altos funcionários, por exemplo no caso Sinclair, ou seja, o tratado petrolífero ao abrigo do qual uma empresa estrangeira obteve o monopólio da extração de petróleo em Itália. Diz-se que até o casino de Monte Carlo pagou uma quantia enorme para que a lei que limita as autorizações de abertura de casinos em Itália fosse promulgada. Na sequência destes rumores, Finzi foi mesmo forçado pelos fascistas a apresentar imediatamente a sua demissão. A questão permanece em aberto: isto é um crime político em sentido estrito ou um crime provocado pela necessidade de fechar a boca a testemunhas da corrupção moral do governo fascista? Seja qual for o caso, a atitude da oposição burguesa e a da oposição comunista às duas possibilidades são bastante diferentes.

O que diz a oposição burguesa? Pois não é mais do que um caso judicial. Exige do governo a punição dos culpados. O seu ponto de vista é que o governo não se pode limitar a estabelecer os assassinos diretos, mas que a justiça deve lançar luz sobre todo o caso, e que as altas personalidades, talvez mesmo membros do governo, envolvidas no caso também devem ser chamadas à responsabilidade. Por exemplo, com base na descoberta de alguma co-responsabilidade, o General De Bono, chefe supremo da polícia, foi acusado e forçado a demitir-se. Isto mostra até onde vai a responsabilidade da hierarquia fascista. Além disso, De Bono continua a ser um dos principais líderes da "Milizia Nazionale".

Assim, a oposição burguesa vê toda a questão como uma questão judicial, como uma questão de moralidade política, de restabelecimento da paz e tranquilidade social no país, para o fim do terror e atos de violência semelhantes. Para nós, pelo contrário, é uma questão política e histórica, uma questão de luta de classes, uma consequência grosseira mas necessária da ofensiva capitalista para defender a burguesia italiana. A responsabilidade pelo facto de tais horrores serem possíveis hoje em dia recai sobre todo o partido fascista. Sobre todo o governo, sobre toda a classe burguesa da Itália e sobre o seu regime. Deve ser declarado abertamente que só a ação revolucionária do proletariado pode liquidar tal situação; uma situação que mostra tais sintomas já não pode ser curados por medidas puramente judiciais, pela restauração filisteia da lei e da ordem. Em vez disso, o que é urgentemente necessário é a destruição da ordem existente, um derrube completo que só o proletariado pode provocar. No início, os comunistas juntaram-se aos protestos da oposição parlamentar na Câmara. Mas depressa foi necessário traçar uma linha entre a nossa oposição e a deles, e os comunistas já não participavam nas outras declarações dos outros partidos.

Os maximalistas estão também representados na comissão parlamentar de oposição. Devemos assinalar, a este respeito, um facto muito característico. O Partido Comunista tinha proposto, como ação de protesto contra o assassinato de Matteotti, a implementação de uma greve geral em toda a Itália. As greves espontâneas já tinham surgido em várias cidades, o que mostrou que se tratava de uma proposta muito séria e concreta.

Os outros partidos, com a aprovação dos maximalistas propuseram como ação de protesto em honra de Matteotti a proclamação de uma greve de dez minutos. Mas os reformistas, os maximalistas, a CGIL e os outros grupos da oposição tiveram a infelicidade de a Confederação Industrial e os sindicatos fascistas aceitarem imediatamente a proposta e juntaram-se oficialmente à oposição! Assim, o protesto perdeu, naturalmente, todo o sentido como ação de classe. É agora tão claro como a luz do dia que apenas os comunistas fizeram uma proposta que teria permitido ao proletariado intervir de forma decisiva no decurso dos acontecimentos.

Que perspetivas oferece a atual situação ao governo Mussolini? Antes destes acontecimentos recentes, fomos forçados a constatar que, embora não faltassem sinais impressionantes de um crescente descontentamento com o fascismo, a sua organização militar e estatal era no entanto demasiado poderosa para permitir o aparecimento de uma força capaz de trabalhar praticamente para o derrube do fascismo num futuro próximo. O descontentamento estava a crescer, mas ainda estávamos longe de uma crise.

Os acontecimentos recentes são um exemplo esmagador de como pequenas causas determinam grandes efeitos. O assassinato de Matteotti acelerou extraordinariamente o desenvolvimento da situação, embora, evidentemente, as premissas para este desenvolvimento já estivessem latentes nas condições sociais. O ritmo da crise fascista foi muito acelerado, o governo fascista sofreu, moralmente, psicologicamente e num certo sentido também politicamente, uma derrota esmagadora. Esta derrota ainda não teve quaisquer repercussões no terreno da organização política, militar e administrativa, mas é evidente que uma tal derrota moral e política é o primeiro passo para um novo desenrolar da crise e da luta pelo poder. O governo teve de fazer concessões consideráveis, tais como a de ceder a pasta do Interior ao antigo nacionalista, e agora fascista, líder Federzoni; foi forçado a fazer ainda outras concessões; mas ainda manteve o poder nas suas mãos. Nos seus discursos no Senado, Mussolini disse abertamente que manterá o seu posto, e usará todos os meios de poder que ainda tem, contra quem quer que o ataque.

De acordo com os últimos relatórios, a onda de indignação na opinião pública ainda não diminuiu. Mas a situação objetiva tornou-se mais estável. A Milícia Nacional, que tinha sido mobilizada dois dias após o assassinato de Matteotti, foi novamente desmobilizada, e os seus membros estão a regressar às suas ocupações habituais. Isto significa que o governo considera o perigo imediato removido. Mas é evidente que, num momento muito mais próximo do que previmos antes do caso Matteotti, terão lugar acontecimentos notáveis.

É também evidente que a posição do fascismo no futuro será muito mais difícil e que as possibilidades práticas de ação anti-fascista são hoje diferentes de antes, com base nos acontecimentos que tiveram lugar.

* * *

Como nos devemos comportar, face à nova situação que se abriu inesperadamente? Vou delinear esquematicamente a minha opinião.

O PC deve realçar o papel independente que a situação em Itália lhe atribui, e dar uma palavra de ordem do seguinte conteúdo: liquidação dos grupos de oposição antifascistas existentes e sua substituição pela ação direta e aberta do movimento comunista. Encontramo-nos hoje confrontados com acontecimentos que empurram o PC para a linha da frente do interesse público. Durante um tempo após os fascistas terem tomado o poder, houve detenções em massa dos nossos camaradas. Dizia-se então que as forças comunistas e bolcheviques foram aniquiladas, espalhadas ao vento, que o movimento revolucionário foi completamente liquidado. Mas há já algum tempo, após as eleições e outros eventos, o partido tem vindo a mostrar sinais de vida demasiado fortes para que tal afirmação se mantenha. Em todos os seus discursos, Mussolini é obrigado a mencionar os comunistas. Na controvérsia sobre o caso Matteotti, a imprensa fascista tem de se defender todos os dias e tomar posição contra os comunistas.

Isto atrai os olhos de toda a gente para o nosso partido e para a tarefa especial e independente que lhe incumbe em comparação com todos os outros grupos da oposição unidos por um parentesco próximo. O nosso partido, com a posição particular que assumiu, traça uma linha clara de demarcação entre si e esses outros grupos. Afinal, no proletariado italiano, graças às experiências das lutas de classe em Itália durante a guerra e no período pós-guerra, e graças às deceções cruéis que sofreu, a consciência da necessidade de uma liquidação completa de todas as correntes social-democratas – da esquerda burguesa à direita proletária – está firmemente enraizada. Todas estas correntes têm tido a possibilidade prática de agir e de se afirmar. A experiência tem demonstrado que todos eles são insuficientes e incapazes. A vanguarda, do proletariado revolucionário, do partido comunista, é a única que nunca cedeu.

Mas, para poder levar a cabo uma política independente em Itália, é absolutamente necessário que nenhum derrotismo reine no próprio Partido. Não devemos dizer aos proletários italianos, que têm confiança no partido e nos seus esforços, que as tentativas de ação feitas até agora pelos comunistas significam fracasso e fracasso!

Se mostrarmos com factos que o partido sabe organizar a luta e implementar as suas próprias táticas autónomas, se mostrarmos com factos que o partido ainda vive como o único partido da oposição, se soubermos dar as palavras de ordem apropriadas para indicar uma forma praticável de ataque, levaremos a cabo com sucesso a nossa tarefa de liquidar os grupos da oposição, e, em primeiro lugar, os socialistas e maximalistas. Neste sentido, a situação atual deve, na minha opinião, ser por nós explorada.

O trabalho nesta dicção, contudo, não deve limitar-se a polémicas; o trabalho prático deve ser levado a cabo para a conquista das massas. O objetivo deste trabalho é o alistamento unido das massas para a ação revolucionária, a frente unida do proletariado nas cidades e nas zonas rurais sob a liderança do Partido Comunista. Só com esta frente única é que teremos alcançado a condição que nos permitirá engajar na luta direta contra o fascismo. Este é um grande trabalho que pode e deve ser feito mantendo a independência do partido.

Existe a possibilidade de, após o caso Matteotti, o fascismo desencadear uma "segunda onda" de terror, uma nova ofensiva contra a oposição. Mas mesmo isto será apenas um episódio na evolução da situação. Talvez assistamos a um recuo da oposição, um abrandamento da expressão pública de descontentamento devido a este novo terror. No entanto, com o tempo, a oposição e o descontentamento começarão a crescer novamente. O fascismo não se pode agarrar ao poder através de uma pressão constante e implacável. Existe talvez também a outra possibilidade: a de juntar todas as massas trabalhadoras por iniciativa do PC e dar a palavra de ordem da reconstituição dos sindicatos vermelhos. Talvez, muito em breve, seja possível iniciar este trabalho.

Os oportunistas não se atrevem a fazer este trabalho. Há cidades em Itália onde se poderia convidar os trabalhadores a juntarem-se de novo aos sindicatos vermelhos com sucesso garantido. Mas como este regresso significaria ao mesmo tempo dar o sinal pá luta, porque ao mesmo tempo se teria de estar preparado para lutar contra os fascistas, os partidos oportunistas não têm pressa em reconstituir as organizações de massas do proletariado. Se o PC for o primeiro a explorar o momento favorável para o lançamento desta palavra, será oferecida a possibilidade de que a reorganização do movimento operário italiano tenha lugar em torno do PC como o seu centro.

Mesmo antes da situação criada pelo caso Matteotti, a nossa atitude independente era a melhor manobra que podíamos realizar. Por exemplo, nas eleições, mesmo elementos não comunistas votaram nas listas comunistas porque viram no comunismo, como disseram, o mais claro e mais radical anti-fascismo, a mais clara rejeição do que odiavam. A nossa posição independente é assim um meio de exercer influência política mesmo sobre os estratos não diretamente ligados a nós. Foi precisamente porque nos apresentámos com um programa inequívoco que o PC teve tanto sucesso nas eleições, apesar da ofensiva governamental lançada em primeiro lugar contra as nossas listas e contra o nosso trabalho eleitoral. Apresentamo-nos oficialmente com a palavra de ordem "Unidade do proletariado", mas as massas votaram em nós porque éramos comunistas, porque declarámos abertamente guerra ao fascismo, porque os nossos adversários nos definiram como irreconciliáveis. Esta atitude garantiu-nos êxitos notáveis.

O mesmo se aplica ao caso Matteotti. Toda a gente está a olhar para o Partido Comunista, que fala uma língua bastante diferente de qualquer outro partido da oposição. Daqui decorre que só uma atitude completamente independente e radical perante o Fascismo e a Oposição nos permitirá tirar partido dos desenvolvimentos em curso para derrubar o gigantesco poder do Fascismo.

O mesmo trabalho deve ser feito para a conquista das massas camponesas. Devemos elaborar uma forma de organização do campesinato que nos permita trabalhar não só entre os assalariados agrícolas, que basicamente já seguem a mesma linha dos assalariados industriais, mas também entre os rendeiros, pequenos agricultores, etc., no seio de organizações que defendem os seus interesses. A situação económica é tal que nenhuma pressão, por muito grande que seja, pode impedir a formação de tais organizações. Devemos tentar colocar esta questão perante os pequenos proprietários camponeses, e apresentar um programa claro contra a sua opressão e expropriação. Temos de romper completamente com a atitude ambígua do Partido Socialista neste campo. Devemos utilizar as correntes existentes para a formação de organizações camponesas, e empurrá-las para o caminho da defesa dos interesses económicos da população rural. Pois se estas organizações fossem transformadas em aparelhos eleitorais, cairiam nas mãos de agitadores burgueses, políticos, e advogados das pequenas cidades e dos burgueses. Se, por outro lado, conseguirmos dar vida a uma organização para a defesa dos interesses económicos do campesinato (não um sindicato, porque em teoria a ideia de um sindicato de pequenos proprietários esbarra contra sérias objeções), teremos uma associação no seio da qual poderemos levar a cabo um trabalho de grupo, que poderemos imbuir da nossa influência, e na qual encontraremos um ponto de apoio para o bloco do proletariado urbano e rural sob a liderança única do Partido Comunista.

Não se trata, de forma alguma, de apresentar um programa terrorista. Foram criadas lendas à nossa volta. Tem-se dito que queremos ser um partido minoritário, uma pequena elite ou algo semelhante. Nunca o afirmámos. Se há um movimento que se esforçou incansavelmente com as suas críticas e táticas para destruir as ilusões sobre terroristas minoritários que outrora foram difundidas por ultra-anarquistas e sindicalistas, tem sido o nosso partido. Sempre nos opusemos a esta tendência, e isso significa realmente virar as coisas do avesso para nos apresentarmos como terroristas ou partidários de ações minoritárias, armadas, heroicas, etc.!

No entanto, somos de opinião que sobre o problema de desarmar os guardas brancos e armar o proletariado, com o qual o nosso partido está hoje a lidar, é necessário tomar uma posição de princípio clara.

Certamente, a luta é possível com a participação das massas. A grande massa do proletariado sabe muito bem que a questão não pode ser resolvida pela ofensiva de uma vanguarda heroica. Esta é uma conceção ingénua, que todos os partidos marxistas devem rejeitar. Mas, se lançarmos entre as massas a palavra de ordem de desarmar os guardas brancos e armar o proletariado, devemos apresentar estas próprias massas trabalhadoras como portadoras da ação; devemos rejeitar a ilusão de que um "governo de transição" possa ser tão ingénuo que permita, por meios legais ou manobras parlamentares, por expedientes mais ou menos habilidosos, a evasão das posições da burguesia, ou seja, a tomada legal de posse de toda a sua máquina técnica e militar e a distribuição pacífica de armas ao proletariado; e que, tendo feito isto, o sinal de luta possa ser dado em silêncio. Esta é realmente uma conceção infantil e ingénua! Uma revolução não vem com facilidades destas!

Estamos absolutamente convencidos da impossibilidade de empreender a luta com algumas centenas ou alguns milhares de comunistas armados. O Partido Comunista de Itália é o último a ceder a tais ilusões. Estamos firmemente convencidos da necessidade inescapável de atrair as grandes massas para a luta. Mas o armamento é um problema que só pode ser resolvido por meios revolucionários. Podemos explorar o abrandamento no desenvolvimento do fascismo para criar formações revolucionárias proletárias. Mas temos de liquidar a ilusão de que qualquer manobra nos colocará um dia em posição de apreender o aparelho técnico e as armas da burguesia, ou seja, de atar as mãos dos nossos adversários antes de entrarmos na ofensiva contra eles.

Combater esta ilusão que leva o proletariado à apatia em relação à revolução não é terrorismo. É, pelo contrário, uma atitude verdadeiramente marxista e revolucionária. Não dizemos de todo que somos "eleitos" comunistas e que queremos perturbar o equilíbrio social através da ação de uma pequena minoria. Pelo contrário, queremos conquistar a liderança das massas proletárias, queremos a unidade de ação do proletariado; mas também queremos utilizar as experiências do proletariado italiano que nos ensinam que as lutas sob a liderança de um partido não consolidado – mesmo que seja um partido de massas ou uma coligação improvisada de partidos – conduzem necessariamente à derrota. Queremos a luta comum das massas trabalhadoras nas cidades e no campo, mas queremos que a direção desta luta seja dada por um estado-maior com uma linha política clara, ou seja, o partido comunista.

É este o problema com que nos deparamos.

A situação desenrolar-se-á de uma forma mais ou menos complicada, mas já existem agora as premissas para o lançamento de palavras de ordem e agitação no sentido em que o PC toma a iniciativa e a liderança da revolução e declara abertamente que é necessário avançar sobre as ruínas dos grupos de oposição antifascistas existentes. O proletariado deve ser avisado que no momento em que a tomada do poder pela classe trabalhadora em Itália se apresentar de novo à classe capitalista como um perigo agudo, todas as forças burguesas e social-democratas irão juntar-se ao fascismo. Estas são as perspetivas da luta para a qual temos de nos preparar.

Finalmente, quero acrescentar algumas palavras sobre o fascismo como fenómeno internacional, com base nas nossas experiências em Itália.

Somos da opinião que o fascismo tende de certa forma a espalhar-se também fora de Itália. Movimentos semelhantes noutros países, como a Bulgária, Hungria, e talvez até a Alemanha, foram provavelmente apoiados pelo fascismo italiano. Mas embora seja certo que o proletariado em todo o mundo deve compreender e utilizar as lições que o fascismo deu em Itália no caso de se formarem movimentos semelhantes noutros países como meio de luta contra os trabalhadores, não se deve esquecer, no entanto, que em Itália houve certos pressupostos especiais que permitiram ao movimento fascista alcançar uma força tão gigantesca. Entre estes pressupostos, mencionarei em primeiro lugar a unidade nacional e religiosa.

Agora acredito que ambos os pressupostos são indispensáveis para a mobilização da classe média pelo fascismo. Para uma mobilização sentimental, a unidade nacional e religiosa é necessária como base. Na Alemanha, a formação do grande partido fascista foi evidentemente oposta pela presença de duas confissões diferentes e nacionalidades diferentes com tendências parcialmente separatistas. Em Itália, o fascismo encontrou premissas excecionalmente favoráveis: a Itália pertencia aos estados vitoriosos; o chauvinismo e o patriotismo tinham atingido um estado de sobre-excitação enquanto as vantagens materiais da vitória tinham falhado. Estreitamente ligada a este facto esteve a derrota do proletariado. A classe média esperaram para ver se o proletariado vencia ou não. Contudo, quando a impotência dos partidos revolucionários do proletariado foi demonstrada, eles acreditavam que podiam agir independentemente e tomar o governo nas suas próprias mãos. Entretanto, a grande burguesia teve a oportunidade de subjugar estas forças de modo a lutarem para os seus próprios interesses.

Com base nestes factos, creio que ainda não devemos esperar noutros países um fascismo tão manifesto como o italiano, um fascismo no sentido de um movimento unido dos estratos superiores exploradores e de uma mobilização das grandes massas da classe média e da pequena burguesia no interesse desses estratos. O fascismo nos outros países difere do da Itália. Nestes países está limitado a um movimento pequeno-burguês, com uma ideologia reacionária totalmente pequeno-burguesa e com algumas formações armadas; um movimento que, contudo, não consegue identificar-se completamente com a grande indústria e, sobretudo, com o aparelho estatal. Este aparelho estatal pode muito bem entrar em coligação com os partidos das grandes indústrias, grandes bancos e grandes proprietários de terras, mas com respeito à classe média e à pequena burguesia, permanece mais ou menos independente. É evidente que este fascismo também representa para o proletariado um inimigo. Mas é um inimigo muito menos perigoso do que o fascismo italiano.

Na minha opinião, a questão das relações com tal movimento está totalmente resolvida: é uma loucura pensar em qualquer ligação com ele. É precisamente este movimento que fornece a base para a mobilização política contra-revolucionária das massas semi-proletárias, e há graves perigos em trazer o próprio proletariado para esta base.

Em geral, podemos esperar no estrangeiro uma cópia do fascismo italiano que se cruzará com as formas de expressão da "onda democrática e pacifista". Mas o fascismo assumirá formas diferentes do que em Itália. A reação e a ofensiva capitalista dos diferentes estratos em luta com o proletariado não serão aí sujeitas a uma tal direção unitária.

Muito foi já dito sobre as organizações italianas anti-fascistas, no estrangeiro. Estas organizações foram criadas por emigrantes burgueses italianos. Também na ordem do dia está a questão do julgamento do fascismo italiano pela opinião pública internacional, da campanha de propaganda conduzida contra ele por países civilizados. Acredita-se mesmo ver na indignação moral da burguesia de outros países um meio de liquidar o movimento fascista.

Os comunistas e os revolucionários não podem cair nesta ilusão, sobre a sensibilidade democrática e moral da burguesia de outros países. Mesmo onde as tendências pacifistas e de esquerda ainda hoje se apresentam, amanhã o fascismo será utilizado sem escrúpulos como um método de luta de classes. Sabemos que o capital internacional só se pode regozijar com as façanhas do fascismo em Itália, com o terror que aí exerce contra trabalhadores e camponeses.

Na luta contra o fascismo só podemos contar com a Internacional revolucionária proletária. Esta é uma questão de luta de classes. Não recorremos aos partidos democráticos de outros países, às associações de idiotas e hipócritas como a Liga dos Direitos Humanos, porque não queremos criar a ilusão de que estão a lidar com algo substancialmente diferente do fascismo, ou que a burguesia de outros países não é capaz de preparar para a sua classe trabalhadora as mesmas perseguições e as mesmas atrocidades que o fascismo em Itália.

Contamos, portanto, para uma revolta contra o fascismo italiano e para uma campanha internacional contra o terror no nosso país, unicamente com as forças revolucionárias em Itália e no estrangeiro. São os trabalhadores de todos os países que devem boicotar os fascistas italianos. Os nossos camaradas que foram perseguidos durante a luta e fugiram para o estrangeiro participarão de forma não negligenciável nesta luta e na criação de um clima internacional anti-fascista do proletariado. A reação e o terror em Itália devem suscitar um ódio de classe, uma contra-ofensiva do proletariado que nos conduzirá à emancipação internacional das forças revolucionárias, à luta à escala mundial contra o fascismo internacional e contra todas as outras formas de opressão burguesa.