Partido Comunista Internacional Corpo unitário e invariante das teses do partido

Partido Comunista Internacional


Apelo para a Reorganização Internacional do Movimento Revolucionário Marxista

(1949)


INTRODUÇÃO DE 1993

O texto seguinte, escrito em 1950 com vista à sua publicação em francês, é ainda hoje tão relevante como era quando foi escrito. Por um lado porque a evolução do mundo capitalista, o que inclui a Rússia, mais do que confirmou as nossas expectativas, e por outro, porque as reações de muitos grupos de trabalhadores de vanguarda contra o Estalinismo nunca deixaram de ser híbridas e confusas; uma reação que tomou a forma do democratismo, ou mesmo da negação tanto do papel desempenhado pela violência na luta de classes, como do partido revolucionário como órgão fundamental e indispensável da ditadura proletária. Assim, tornou-se uma tarefa séria e urgente para a esquerda marxista traçar uma linha de demarcação entre si e a miríade de outros grupos e correntes políticas que cresceram no terreno apodrecido constituído pelas críticas democráticas ou para-democráticas do regime soviético.

Os críticos democráticos do regime russo encontrariam de facto os seus mais ávidos apoiantes entre a grande burguesia do Ocidente capitalista, que, na esperança de abrir o vasto mercado russo, incita e encoraja o Estado Russo ao fazê-lo nas suas críticas ao "totalitarismo russo". Eventualmente, quando as portas daquele santuário da capital americana, a hambúrgueria, se abriram em Moscovo a uma fanfarra de publicidade internacional, os cruzados da democracia veriam realizado o seu sonho de um Parlamento eleito. Mas não demoraria muito até que a espantosa hipocrisia da burguesia fosse novamente revelada, e um coro de "líderes mundiais" ocidentais apoiaria o Presidente Yeltsin ao dissolver o Parlamento, proibir vários documentos e afogar em sangue a oposição dos democratas parlamentares. É um episódio que serve como testemunho renovado do facto de que o regime capitalista alterna entre meios totalitários e democráticos do Governo para defender o seu governo de classe.


A CRISE ALARMANTE NO MOVIMENTO PROLETÁRIO

A organização das classes trabalhadoras de todos os países do mundo é, como resultado de uma série de cisões e da propagação do derrotismo, quase totalmente dominada por duas forças.

Por um lado, existe a forma tradicional do socialismo democrático. Com base em relações pacíficas entre classes, estas organizações apoiam um programa de colaboração social e política com a burguesia, e planeiam defender os interesses dos trabalhadores por meios legais, no quadro da constituição burguesa. Sugerem que a propriedade privada mudará gradualmente para o socialismo, e rejeitam o uso da violência e a ditadura do proletariado por princípio.

Por outro lado, há os partidos que defendem o governo no poder na URSS. Estes anunciam a URSS como um Estado operário com uma política modelada no comunismo revolucionário, tal como definido por Marx e Lenine, e consistente com a grande vitória da Revolução de Outubro. Esta segunda força do movimento proletário afirma, em teoria, não rejeitar as táticas de insurreição, ditadura e terrorismo. Ao mesmo tempo, porém, diz que é conveniente utilizar nos países capitalistas os mesmos métodos táticos que as classes proprietárias e não-proletárias, e os seus slogans e exigências de propaganda seguem a mesma linha. Por exemplo, há o apelo ao bem-estar nacional, à segurança da pátria, e o slogan da coexistência pacífica entre classes com interesses opostos no quadro da democracia parlamentar.

A aplicação de uma tal política, idêntica à social-democracia, depende da satisfação de certas condições. Teria de haver paz entre o governo da União Soviética e os governos burgueses. Os trabalhadores do mundo teriam de admitir que, ao salvaguardar o poder russo, como premissa e promessa do socialismo mundial, estavam a garantir-se contra a futura exploração capitalista. E tanto os trabalhadores como os capitalistas teriam de reconhecer que durante um período de tempo ilimitado a União Soviética poderia coexistir com as potências capitalistas de uma forma normal e pacífica. Estas condições, um utopia idiótica, são resumidas pelos democratas burgueses na fórmula parva de "não intervenção nos assuntos internos dos Estados soberanos" e no mais recente e ainda mais ridículo slogan de "competição pacífica" entre o socialismo e o capitalismo.

De tempos a tempos, a classe operária revolta-se contra as contradições óbvias deste ponto de vista histórico; e embora até agora estas rebeliões tenham sido limitadas e incertas, irão sem dúvida ganhar força.

A propaganda sem fim tem menos e menos sucesso a ocultar estas contradições. É habilmente orientada para confundir deliberadamente objetivos a longo prazo com objetivos imediatos, confundir expedientes táticos com posições de princípio, e é selecionada de acordo com o contexto social particular.

O plano de convencer os países capitalistas de que podem deixar o regime soviético sobreviver se tal lhes apetecer, sem fazer um ataque militar ou planear alguma convulsão social, só pode significar convencê-los de que não é um Estado de classe trabalhadora e, portanto, já não é anti-capitalista. Esta política mostra o verdadeiro estado das coisas.

Convencer os trabalhadores dos países burgueses de que não precisam de organizar as suas forças para uma insurreição e o derrube dos seus sistemas económicos, administrativos e políticos nacionais, pode muito bem ajudar a recrutar membros dos estratos sociais que normalmente apoiam os social-democratas, mas não tem qualquer efeito sobre os trabalhadores mais avançados. A eles é oferecida a perspetiva de uma guerra generalizada entre Estados que conduza à conquista do poder de classe pelo proletariado, papel que Marx e Lenine sempre atribuíram só à guerra civil. Quando uma guerra deste tipo rebenta, e independentemente do lado que a iniciou, os Estalinistas prometem aos grupos de trabalhadores avançados uma oportunidade de experimentarem com ações ilegais e derrotistas dentro dos seus próprios países. Em apoio a esta promessa vã, dizem que estes "partisans" poderão contar não só com as suas próprias forças mas também com a ação paralela de uma máquina militar moderna aperfeiçoada.

A outra secção dos seus seguidores, que constitui certamente a grande maioria, é constituída por trabalhadores sem consciência revolucionária; artesãos, pequenos proprietários de terras, comerciantes e fabricantes de classe média, trabalhadores de colarinho branco e funcionários públicos, intelectuais e políticos profissionais. A esta secção os estalinistas estão continuamente a fazer propostas que vão ao ponto de oferecer uma frente unida permanente, não só com as classes proprietárias mas também com os partidos burgueses, que eles próprios classificam como reacionários e de direita. Também lhes prometem um futuro de paz, tanto interna como mundial; de tolerância democrática para com qualquer partido político, organização ou credo; de progresso económico sem conflito ou expropriação dos ricos; de bem-estar igual para todos os estratos sociais. É assim cada vez mais difícil para eles justificar, aos olhos das massas, a própria existência da União Soviética e dos seus satélites de um duro Estado policial totalitário, controlado por Estalinistas num rígido sistema de partido único.

Esta degeneração do movimento proletário foi mais longe que a do oportunismo revisionista e chauvinista da Segunda Internacional e irá durar mais tempo. O início deste oportunismo moderno podemos fixar, ao mais tardar, em 1928; o oportunismo da Segunda Internacional atingiu o ponto culminante do seu ciclo nos anos 1912-1922, embora as suas origens tenham recuado muito mais do que 1912, e as suas consequências tenham ido muito além de 1922


PRIMEIROS SINTOMAS DE REAÇÃO AO ESTALINISMO

Recentemente tem havido sinais de impaciência com o oportunismo Estalinista. Tanto militantes individuais como grupos têm aparecido nos cenários políticos de diferentes países defendendo o regresso à doutrina de Marx e Lenine e às teses da 3ª Internacional nos seus primeiros quatro Congressos. Estes últimos denunciaram os Estalinistas pela sua completa traição à política original.

Contudo, a maioria destas divisões não pode ser considerada como um reagrupamento útil numa base de classe genuína, mesmo de uma pequena vanguarda do proletariado. Muitos destes grupos, como resultado da sua falta de trabalho teórico e devido à sua origem de classe, mostram na própria natureza da sua crítica à atividade Estalinista, tanto passada como presente, que são mais ou menos diretamente influenciados por esquemas políticos originários dos centros imperialistas do Ocidente e pela propaganda histérica e hipócrita do liberalismo e do humanitarismo.

Mas quer tais políticas sejam o resultado de maquinações de agentes secretos ou não, o verdadeiro dano que causam é que desviam militantes incautos do caminho realmente Marxista.

No entanto, historicamente falando, o facto essencial da permissão de ambos os meios do derrotismo contra-revolucionário sejam bem sucedidos é inteiramente responsabilidade dos oportunistas Estalinistas. Foram eles que deram o seu selo de aprovação a uma abundância de ideologias e teorias burguesas, que trabalharam freneticamente para impedir que os movimentos da classe trabalhadora fossem autónomos, independentes e prontos para se defenderem, apesar de estes atributos terem sido tão frequentemente salientados por Marx e Lenine.

Este curso confuso e desfavorável da luta proletária coincide com o crescimento irresistível da industrialização altamente concentrada, que está a ocorrer tanto nos velhos centros industriais como pela extensão da indústria a todo o mundo. Por conseguinte, ajuda a ofensiva conduzida pelos Estados Unidos contra as massas do mundo. Os Estados Unidos são o maior pilar do imperialismo e, como acontece com todas as grandes concentrações de capital metropolitano, forças de produção e poder, tendem a explorar e oprimir à força bruta as massas mundiais, derrubando todos os obstáculos sociais e territoriais. Os Estalinistas desviaram a luta dos objetivos internacionais e limitaram-se à defesa de objetivos nacionais precisos delimitados pelos objetivos políticos e militares do lado Russo. Como resultado, serão cada vez menos capazes de liderar a luta internacional ou nacional, e tornar-se-ão cada vez mais ligados ao imperialismo ocidental, como foi abertamente demonstrado pela aliança de guerra.

A posição marxista sempre foi a de que os principais inimigos de classe são as grandes potências dos países super-industrializados e super-coloniais, que só podem ser derrubados pela revolução proletária. De acordo com o ponto de vista marxista, os comunistas da esquerda italiana dirigem hoje um apelo aos grupos revolucionários de trabalhadores de todos os países. Convidam-nos a refazer um longo e difícil caminho e a reagruparem-se numa base internacional e estritamente de classe, denunciando e rejeitando qualquer grupo que seja influenciado, mesmo parcial ou indiretamente, pelas políticas e pelo conformismo filisteu que emana das forças controladas pelo Estado em todo o mundo.

A reorganização de uma vanguarda internacional só pode ter lugar se houver uma homogeneidade absoluta de pontos de vista e orientações; o Partido Comunista Internacional propõe aos camaradas de todos os países os seguintes princípios e postulados básicos.


1. Reafirmação das Armas da Revolução Proletária: Violência-Ditadura-Terrorismo

Para os marxistas revolucionários de esquerda, saber que ocorreram atos de repressão, crueldade ou violência contra indivíduos ou grupos, mesmo que estes atos fossem autorizados ou controláveis, não é em si mesmo um elemento decisivo na condenação do Estalinismo ou de qualquer outro regime. Manifestações de repressão, mesmo a mais severa, formam uma parte inseparável de todas as sociedades baseadas em divisões de classe. Desde o seu início, o marxismo rejeitou os chamados "valores" de uma civilização baseada na luta de classes, tal como rejeita as regras de "luta justa" pelas quais as classes opostas devem regular o roubo e o assassinato para sua satisfação mútua. Nenhuma extorsão ou ofensa sofrida por "seres humanos", nenhum "genocídio", ilegal ou legal, pode ser combatido atribuindo-os a determinados indivíduos ou àqueles que lhes deram as suas ordens, mas apenas lutando pela destruição revolucionária de todas as divisões de classe. Na fase atual do capitalismo, caracterizada por atrocidades crescentes, crueldade e super-militarismo, apenas os mais idiotas dos movimentos revolucionários circunscreveriam os seus métodos de ação dentro dos limites da bondade formal.


2. Ruptura Completa com a Tradição de Alianças de Guerra, Frentes de Partisans e Libertações Nacionais

O Estalinismo foi condenado pela primeira vez de forma irrevogável precisamente porque abandonou estes princípios fundamentais do comunismo, lançando os proletários a uma guerra fratricida que os dividiu em dois campos imperialistas, reforçando assim fortemente a propaganda vergonhosa emitida pelo campo ao qual se tinha tornado aliado. Este campo, não melhor que o outro, mascara a sua ganância imperialista, que foi exposta há décadas por críticas marxistas e leninistas, como se o seu respeito pelos métodos "civilizados" de guerra o distinguia do seu adversário. Fingia que mesmo que fosse obrigado a bombardear, "com bombas nucleares", invadir, e finalmente, após ansioso exame de consciência, recorrer a enforcamentos, não era para defender os seus próprios interesses, mas para remover a ameaça aos "valores morais" da civilização e da liberdade humana.

O leninismo tinha sido a luta contra isto quando em 1914 esta mesma vergonhosa burla foi usada pelos traidores da Segunda Internacional para proclamarem a aliança patriótica contra o perigo imaginário da "barbaridade" teutónica ou czarista.

Os imperialistas ocidentais usaram exatamente a mesma burla para entrarem na guerra contra a nova barbaridade nazi ou fascista, e a mesma traição estava contida na aliança concluída entre o Estado Russo e os Estados imperialistas – ao inicio aliados aos próprios nazis – e na aliança forjada entre os partidos dos trabalhadores e os partidos burgueses com vista a ganhar a guerra.

Estas mentiras e traições são uma questão de registo histórico, especialmente agora que encontramos os russos a acusar os americanos de serem agressores ou fascistas, e estes últimos a acusar os russos da mesma coisa, embora admitindo que se tivessem conseguido utilizar a bomba atómica (não pronta em 1941) para massacrar a Europa, tê-lo-iam feito, em vez de utilizar os exércitos compostos por trabalhadores russos mobilizados para a mesma tarefa.

É verdade que o marxismo sempre investigou, e continua a investigar, o que está por detrás de todos os conflitos entre Estados, grupos e frações burguesas, e a partir desta investigação retiraram-se as suas deduções e previsões históricas. Mas opor uma ala civilizada do capitalismo a uma ala bárbara do mesmo sistema é uma negação do marxismo. De facto, de um ponto de vista determinista, pode muito bem ser que o proletariado ganhe mais com uma vitória do partido atacante que utiliza os métodos mais duros de combate do que de outra forma.

Para que as comunidades humanas ultrapassassem a barbaridade, o desenvolvimento de técnicas produtivas era indispensável; mas o homem teve de pagar por esta passagem, sujeitando-se às inúmeras infâmias da civilização de classe, e ao sofrimento resultante da exploração da escravatura, da servidão feudal e da industrialização.

É portanto uma condição fundamental para a reconstrução do movimento revolucionário internacional que as tradições da política chauvinista demonstradas no apoio às alianças de guerra de 1914-18 e 1939-45, frentes populares, resistências guerrilheiras e libertações nacionais sejam igualmente condenadas.


3. Negação histórica do Defencionismo, do Pacifismo e do Federalismo entre Estados

A linha orientadora da posição marxista ao enfrentar a perspetiva de uma nova guerra pode ser encontrada nos escritos de Lenine. Segundo ele, as guerras das grandes potências desde a época da Comuna de Paris têm sido guerras imperialistas. Isto porque 1871 marcou o fim do período histórico em que houve guerras e insurreições que estabeleceram as fronteiras nacionais dos países capitalistas. Portanto, quando a guerra ocorre, qualquer aliança de classes, qualquer suspensão da oposição de classes e qualquer pressão com objetivos de guerra em mente, constitui uma traição à causa proletária. Para Lenine, também, a revolta das massas de cor nas colónias contra os imperialistas e os movimentos nacionalistas nos países subdesenvolvidos nesta fase moderna do capitalismo só tem um significado revolucionário se a luta de classes nas zonas industrializadas do mundo não for parada, nem afrouxando a sua ligação com os objetivos internacionais da organização proletária. Qualquer que seja a política externa de um Estado, o verdadeiro inimigo interno da classe trabalhadora de cada país é o seu próprio governo.

Neste entendimento – consideravelmente reforçado pelas experiências da 1ª Guerra Mundial, que confirmaram as previsões explícitas feitas nas teses e resoluções da Terceira Internacional até ao momento da morte de Lenine – o período das guerras imperialistas só chegará ao fim com a queda do capitalismo.

O partido revolucionário do proletariado deve portanto negar qualquer possibilidade de uma resolução pacífica dos conflitos imperialistas. Deve combater energicamente quaisquer propostas que mantenham a ilusão de que uma federação, liga ou associação de Estados possa ser capaz de prevenir conflitos, reprimindo "aqueles que os iniciaram" com uma força armada internacional.

Marx e Lenine, embora conscientes da rica complexidade da relação histórica entre guerras e revoluções, condenaram como idealista e burguês a distinção falaciosa entre "agressão" e "defesa" nas guerras entre Estados. Do mesmo modo, o proletariado revolucionário deveria saber que todas as instituições internacionais supranacionais são concebidas apenas como uma força repressiva para conservar o capitalismo, e as suas forças armadas são apenas uma polícia de classe e uma guarda contra-revolucionária.

O verdadeiro comunismo internacional caracteriza-se portanto por uma rejeição total de qualquer propaganda ambígua baseada na defesa do pacifismo e na fórmula estúpida de condenar e punir o “agressor".


4. Condenação de Programas Sociais Partilhados e Frentes Políticas com Classes Não Trabalhadoras

É uma tradição entre a oposição de esquerda de muitos grupos, que remonta aos primeiros erros táticos da Terceira Internacional, rejeitar os métodos de agitação, bastante mal definidos como "bolcheviques", como se fossem incorretos.

Especialmente após a eliminação completa e irrevogável de todas as instituições feudais, trabalhando para o confronto armado final entre o proletariado e a classe dominante para a formação de um Estado operário e de uma ditadura vermelha mundial – que envolve terror político e expropriação de todas as classes privilegiadas – não pode ser alcançado se, em certos momentos e em certos lugares, omitirmos a menção a estes objetivos, que são precisamente o programa do comunismo e do comunismo por si só.

É uma ilusão pensar que se pode conquistar as massas mais rapidamente pondo ordens para a agitação populista no lugar das posições de classe. Do mesmo modo, é uma ilusão vã supor com confiança que os líderes de tal manobras não são, eles próprios, enganados por ela; embora estas promessas sejam frequentemente proclamadas, na melhor das hipóteses, são disparates.

Sempre que o conteúdo principal (que é sempre dito que é transitório) de uma manobra política tem sido uma frente unida com partidos oportunistas, ou tem havido uma exigência de democracia, paz, ou populismo não de classe, ou pior ainda, solidariedade nacional e patriótica, nunca foi uma questão de deixar cair as cortinas do palco parlamentar – depois de ter enfraquecido a frente inimiga com esta camuflagem astuta - para revelar um exército de soldados da Revolução prontos a abrir fogo sobre os aliados temporários de ontem ao momento crucial.

O que aconteceu foi exatamente o oposto. As massas, juntamente com militantes e líderes, tornaram-se incapazes de ação de classe, e as suas organizações e membros, progressivamente desarmadas e domesticadas por tal preparação ideológica e funcional, acabaram por ser os instrumentos e ferramentas preferidas da burguesia dominante.

Estas conclusões históricas já não se baseiam apenas na crítica doutrinal, derivam da terrível experiência histórica, que custou tanto aos operários de todo o mundo, em trinta anos de esforços falidos.

Por conseguinte, um partido revolucionário nunca mais tentará ganhar apoio em massa com exigências específicas às classes não-proletárias e socialmente híbridas, com a assunção de que estas lutarão pelo comunismo.

Este critério básico particular não se aplica às exigências intermédias e específicas que resultam do antagonismo concreto de interesses entre assalariados e empregadores na esfera económica. Está, contudo, em oposição às exigências sem base de classe ou interclasse, especialmente as políticas, sejam elas feitas por uma nação ou internacionalmente. Este critério, decorrente de uma crítica à frente unida política proletária, ao slogan governo dos trabalhadores, e às frentes populares e democráticas, estabelece uma fronteira entre o movimento apoiado por nós, e aquele que se intitula a Quarta Internacional dos Trotskistas. O nosso movimento está separado da mesma forma de todas aquelas versões semelhantes que sob um título diferente reavivam o slogan da degeneração revisionista "o objetivo não é nada, o movimento é tudo", e que consequentemente acabam por alimentar agitações superficiais desprovidas de todo o conteúdo.


5. Proclamação do carácter capitalista da estrutura social russa

A forma como a economia, a legislação e a administração da União Soviética se desenvolveram nos últimos trinta anos dá uma prova histórica de que a revolução operária pode ser submersa não só numa guerra civil sangrenta como foi o caso em Paris em 1871, mas também por uma degeneração progressiva. Isto é igualmente ilustrado pela repressão implacável, e exterminação completa da vanguarda bolchevique revolucionária, que pagou com todo o seu sangue por ter permitido transformar o partido de uma vanguarda com disciplina de ferro numa massa amorfa e pesada, incapaz de exercer controlo sobre a sua própria legislatura ou executivo. O carácter monetário e mercantil da maior parte da economia russa, que não é de modo algum contrariado pela presença do controlo estatal de serviços e indústrias vitais (coisa encontrada também em vários grandes países capitalistas), apresenta-nos não um Estado operário ameaçado pela degeneração, ou em processo de degeneração, mas um Estado que já degenerou e no qual o proletariado já não detém mais o poder.

O poder passou para as mãos de uma coligação híbrida e disforme de interesses internos das classes média baixa e alta, de empresários semi-independentes, e das classes capitalistas internacionais. Tal combinação é contrariada apenas na aparência pela existência de uma cortina de ferro comercial controlada pela polícia.


CONCLUSÃO: REPÚDIO DE QUALQUER APOIO AO MILITARISMO IMPERIALISTA RUSSO, DERROTISMO ABERTO CONTRA A AMÉRICA

Como consequência, uma guerra que parece vir do exterior para forçar a cooperação entre as camadas privilegiadas de vários países na administração do Mundo (como todas as guerras) não será uma guerra revolucionária no sentido leninista, ou seja: uma guerra pela proteção e difusão do poder proletário em todo o Mundo. Uma tal eventualidade histórica, que hoje não está na ordem do dia, nunca implicaria fazer justificações para o complexo político e militar de qualquer país; sobretudo porque os Estados revolucionários, se é que existem, não poderiam encontrar aliados no campo capitalista (como foi claramente provado no final da Primeira Guerra Mundial).

Tomando a nossa hipotética eventualidade, um forte partido comunista internacional cronometraria os ataques das suas secções contra as potências burguesas, de modo a travar expedições militares "punitivas" contra os países revolucionários, e faria com que os trabalhadores que tinham sido armados e mobilizados para tais objetivos apontassem as suas armas contra aqueles que os armaram.

Há ainda mais razões para que qualquer movimento revolucionário mantenha constantemente uma orientação abrangente anti-capitalista e anti-estatal em todos os casos em que a ofensiva esteja menos desenvolvida, e a luta de menor potencial. Os comunistas sabem que só há uma forma de impedir os capitalistas de se entregarem a expedições punitivas contra o proletariado: devem eliminar a classe capitalista, e isto não pode ser feito a menos que a vanguarda da classe trabalhadora esta pronta em todo o lado para a guerra.

Mesmo um desarmamento temporário da consciência de classe, seja ideológico, organizacional ou material, é portanto uma traição onde quer que ocorra e sempre que ocorra. O Centro do movimento comunista nunca deve sucumbir a ele, mesmo que seja uma disciplina firmemente estabelecida que o Centro seja responsável pela escolha do momento, e das formas, que a ação do partido toma. Qualquer partido ou grupo que aceite ser desarmado de tal forma, especialmente se se referir a si próprio como trabalhadores, comunista ou socialista, é o primeiro inimigo a combater e subjugar. Pois é precisamente a sua existência, e a função que desempenham, que está a impedir o derrube do sistema capitalista, um derrube previsto por Marx e Engels e esperado com convicção por todos os marxistas revolucionários.

A estratégia completamente oposta que foi aplicada durante a última guerra pelos resíduos da internacional comunista, e que levou à sua vergonhosa auto-liquidação, foi empreendida para que "os governos ocidentais não fossem impedidos nos seus esforços de guerra", mas teve apenas o efeito de reforçar o poder imperialista ocidental. Demasiado tarde, o governo russo e os círculos militares admitiram que estes últimos eram mais uma ameaça aos seus objetivos do que a Alemanha, objetivos que nessa altura eram já abertamente nacionais e sem qualquer base de classe.

No entanto, o novo recurso às acusações de barbaridade e fascismo não é menos falso e sinistro (acusações que são repetidas logo pelo "mundo livre" contra a Rússia) e os trabalhadores revolucionários da vanguarda devem procurar reunir as suas forças para um combate no qual não podem esperar nem ajuda nem munições das forças militares opostas de hoje. Devem trabalhar na esperança, e certeza, de que a crise e a queda do capitalismo, esperada em vão durante 150 anos, irá atingir o coração dos Estados altamente industrializados: a até agora invencível guarda negra do Mundo.

Introdução de 1993
O texto seguinte, escrito em 1950 com vista à sua publicação em francês, é ainda hoje tão relevante como era quando foi escrito. Por um lado porque a evolução do mundo capitalista, o que inclui a Rússia, mais do que confirmou as nossas expectativas, e por outro, porque as reações de muitos grupos de trabalhadores de vanguarda contra o Estalinismo nunca deixaram de ser híbridas e confusas; uma reação que tomou a forma do democratismo, ou mesmo da negação tanto do papel desempenhado pela violência na luta de classes, como do partido revolucionário como órgão fundamental e indispensável da ditadura proletária. Assim, tornou-se uma tarefa séria e urgente para a esquerda marxista traçar uma linha de demarcação entre si e a miríade de outros grupos e correntes políticas que cresceram no terreno apodrecido constituído pelas críticas democráticas ou para-democráticas do regime soviético.
Os críticos democráticos do regime russo encontrariam de facto os seus mais ávidos apoiantes entre a grande burguesia do Ocidente capitalista, que, na esperança de abrir o vasto mercado russo, incita e encoraja o Estado Russo ao fazê-lo nas suas críticas ao "totalitarismo russo". Eventualmente, quando as portas daquele santuário da capital americana, a hambúrgueria, se abriram em Moscovo a uma fanfarra de publicidade internacional, os cruzados da democracia veriam realizado o seu sonho de um Parlamento eleito. Mas não demoraria muito até que a espantosa hipocrisia da burguesia fosse novamente revelada, e um coro de "líderes mundiais" ocidentais apoiaria o Presidente Yeltsin ao dissolver o Parlamento, proibir vários documentos e afogar em sangue a oposição dos democratas parlamentares. É um episódio que serve como testemunho renovado do facto de que o regime capitalista alterna entre meios totalitários e democráticos do Governo para defender o seu governo de classe.


A CRISE ALARMANTE NO MOVIMENTO PROLETÁRIO

A organização das classes trabalhadoras de todos os países do mundo é, como resultado de uma série de cisões e da propagação do derrotismo, quase totalmente dominada por duas forças.
Por um lado, existe a forma tradicional do socialismo democrático. Com base em relações pacíficas entre classes, estas organizações apoiam um programa de colaboração social e política com a burguesia, e planeiam defender os interesses dos trabalhadores por meios legais, no quadro da constituição burguesa. Sugerem que a propriedade privada mudará gradualmente para o socialismo, e rejeitam o uso da violência e a ditadura do proletariado por princípio.

Por outro lado, há os partidos que defendem o governo no poder na URSS. Estes anunciam a URSS como um Estado operário com uma política modelada no comunismo revolucionário, tal como definido por Marx e Lenine, e consistente com a grande vitória da Revolução de Outubro. Esta segunda força do movimento proletário afirma, em teoria, não rejeitar as táticas de insurreição, ditadura e terrorismo. Ao mesmo tempo, porém, diz que é conveniente utilizar nos países capitalistas os mesmos métodos táticos que as classes proprietárias e não-proletárias, e os seus slogans e exigências de propaganda seguem a mesma linha. Por exemplo, há o apelo ao bem-estar nacional, à segurança da pátria, e o slogan da coexistência pacífica entre classes com interesses opostos no quadro da democracia parlamentar.

A aplicação de uma tal política, idêntica à social-democracia, depende da satisfação de certas condições. Teria de haver paz entre o governo da União Soviética e os governos burgueses. Os trabalhadores do mundo teriam de admitir que, ao salvaguardar o poder russo, como premissa e promessa do socialismo mundial, estavam a garantir-se contra a futura exploração capitalista. E tanto os trabalhadores como os capitalistas teriam de reconhecer que durante um período de tempo ilimitado a União Soviética poderia coexistir com as potências capitalistas de uma forma normal e pacífica. Estas condições, um utopia idiótica, são resumidas pelos democratas burgueses na fórmula parva de "não intervenção nos assuntos internos dos Estados soberanos" e no mais recente e ainda mais ridículo slogan de "competição pacífica" entre o socialismo e o capitalismo.

De tempos a tempos, a classe operária revolta-se contra as contradições óbvias deste ponto de vista histórico; e embora até agora estas rebeliões tenham sido limitadas e incertas, irão sem dúvida ganhar força.

A propaganda sem fim tem menos e menos sucesso a ocultar estas contradições. É habilmente orientada para confundir deliberadamente objetivos a longo prazo com objetivos imediatos, confundir expedientes táticos com posições de princípio, e é selecionada de acordo com o contexto social particular. O plano de convencer os países capitalistas de que podem deixar o regime soviético sobreviver se tal lhes apetecer, sem fazer um ataque militar ou planear alguma convulsão social, só pode significar convencê-los de que não é um Estado de classe trabalhadora e, portanto, já não é anti-capitalista. Esta política mostra o verdadeiro estado das coisas.

Convencer os trabalhadores dos países burgueses de que não precisam de organizar as suas forças para uma insurreição e o derrube dos seus sistemas económicos, administrativos e políticos nacionais, pode muito bem ajudar a recrutar membros dos estratos sociais que normalmente apoiam os social-democratas, mas não tem qualquer efeito sobre os trabalhadores mais avançados. A eles é oferecida a perspetiva de uma guerra generalizada entre Estados que conduza à conquista do poder de classe pelo proletariado, papel que Marx e Lenine sempre atribuíram só à guerra civil. Quando uma guerra deste tipo rebenta, e independentemente do lado que a iniciou, os Estalinistas prometem aos grupos de trabalhadores avançados uma oportunidade de experimentarem com ações ilegais e derrotistas dentro dos seus próprios países. Em apoio a esta promessa vã, dizem que estes "partisans" poderão contar não só com as suas próprias forças mas também com a ação paralela de uma máquina militar moderna aperfeiçoada.

A outra secção dos seus seguidores, que constitui certamente a grande maioria, é constituída por trabalhadores sem consciência revolucionária; artesãos, pequenos proprietários de terras, comerciantes e fabricantes de classe média, trabalhadores de colarinho branco e funcionários públicos, intelectuais e políticos profissionais. A esta secção os estalinistas estão continuamente a fazer propostas que vão ao ponto de oferecer uma frente unida permanente, não só com as classes proprietárias mas também com os partidos burgueses, que eles próprios classificam como reacionários e de direita. Também lhes prometem um futuro de paz, tanto interna como mundial; de tolerância democrática para com qualquer partido político, organização ou credo; de progresso económico sem conflito ou expropriação dos ricos; de bem-estar igual para todos os estratos sociais. É assim cada vez mais difícil para eles justificar, aos olhos das massas, a própria existência da União Soviética e dos seus satélites de um duro Estado policial totalitário, controlado por Estalinistas num rígido sistema de partido único.

Esta degeneração do movimento proletário foi mais longe que a do oportunismo revisionista e chauvinista da Segunda Internacional e irá durar mais tempo. O início deste oportunismo moderno podemos fixar, ao mais tardar, em 1928; o oportunismo da Segunda Internacional atingiu o ponto culminante do seu ciclo nos anos 1912-1922, embora as suas origens tenham recuado muito mais do que 1912, e as suas consequências tenham ido muito além de 1922.


PRIMEIROS SINTOMAS DE REAÇÃO AO ESTALINISMO

Recentemente tem havido sinais de impaciência com o oportunismo Estalinista. Tanto militantes individuais como grupos têm aparecido nos cenários políticos de diferentes países defendendo o regresso à doutrina de Marx e Lenine e às teses da 3ª Internacional nos seus primeiros quatro Congressos. Estes últimos denunciaram os Estalinistas pela sua completa traição à política original.

Contudo, a maioria destas divisões não pode ser considerada como um reagrupamento útil numa base de classe genuína, mesmo de uma pequena vanguarda do proletariado. Muitos destes grupos, como resultado da sua falta de trabalho teórico e devido à sua origem de classe, mostram na própria natureza da sua crítica à atividade Estalinista, tanto passada como presente, que são mais ou menos diretamente influenciados por esquemas políticos originários dos centros imperialistas do Ocidente e pela propaganda histérica e hipócrita do liberalismo e do humanitarismo.

Mas quer tais políticas sejam o resultado de maquinações de agentes secretos ou não, o verdadeiro dano que causam é que desviam militantes incautos do caminho realmente Marxista.

No entanto, historicamente falando, o facto essencial da permissão de ambos os meios do derrotismo contra-revolucionário sejam bem sucedidos é inteiramente responsabilidade dos oportunistas Estalinistas. Foram eles que deram o seu selo de aprovação a uma abundância de ideologias e teorias burguesas, que trabalharam freneticamente para impedir que os movimentos da classe trabalhadora fossem autónomos, independentes e prontos para se defenderem, apesar de estes atributos terem sido tão frequentemente salientados por Marx e Lenine.

Este curso confuso e desfavorável da luta proletária coincide com o crescimento irresistível da industrialização altamente concentrada, que está a ocorrer tanto nos velhos centros industriais como pela extensão da indústria a todo o mundo. Por conseguinte, ajuda a ofensiva conduzida pelos Estados Unidos contra as massas do mundo. Os Estados Unidos são o maior pilar do imperialismo e, como acontece com todas as grandes concentrações de capital metropolitano, forças de produção e poder, tendem a explorar e oprimir à força bruta as massas mundiais, derrubando todos os obstáculos sociais e territoriais. Os Estalinistas desviaram a luta dos objetivos internacionais e limitaram-se à defesa de objetivos nacionais precisos delimitados pelos objetivos políticos e militares do lado Russo. Como resultado, serão cada vez menos capazes de liderar a luta internacional ou nacional, e tornar-se-ão cada vez mais ligados ao imperialismo ocidental, como foi abertamente demonstrado pela aliança de guerra.

A posição marxista sempre foi a de que os principais inimigos de classe são as grandes potências dos países super-industrializados e super-coloniais, que só podem ser derrubados pela revolução proletária. De acordo com o ponto de vista marxista, os comunistas da esquerda italiana dirigem hoje um apelo aos grupos revolucionários de trabalhadores de todos os países. Convidam-nos a refazer um longo e difícil caminho e a reagruparem-se numa base internacional e estritamente de classe, denunciando e rejeitando qualquer grupo que seja influenciado, mesmo parcial ou indiretamente, pelas políticas e pelo conformismo filisteu que emana das forças controladas pelo Estado em todo o mundo.

A reorganização de uma vanguarda internacional só pode ter lugar se houver uma homogeneidade absoluta de pontos de vista e orientações; o Partido Comunista Internacional propõe aos camaradas de todos os países os seguintes princípios e postulados básicos.

1. Reafirmação das Armas da Revolução Proletária: Violência-Ditadura-Terrorismo
Para os marxistas revolucionários de esquerda, saber que ocorreram atos de repressão, crueldade ou violência contra indivíduos ou grupos, mesmo que estes atos fossem autorizados ou controláveis, não é em si mesmo um elemento decisivo na condenação do Estalinismo ou de qualquer outro regime. Manifestações de repressão, mesmo a mais severa, formam uma parte inseparável de todas as sociedades baseadas em divisões de classe. Desde o seu início, o marxismo rejeitou os chamados "valores" de uma civilização baseada na luta de classes, tal como rejeita as regras de "luta justa" pelas quais as classes opostas devem regular o roubo e o assassinato para sua satisfação mútua. Nenhuma extorsão ou ofensa sofrida por "seres humanos", nenhum "genocídio", ilegal ou legal, pode ser combatido atribuindo-os a determinados indivíduos ou àqueles que lhes deram as suas ordens, mas apenas lutando pela destruição revolucionária de todas as divisões de classe. Na fase atual do capitalismo, caracterizada por atrocidades crescentes, crueldade e super-militarismo, apenas os mais idiotas dos movimentos revolucionários circunscreveriam os seus métodos de ação dentro dos limites da bondade formal.

2. Ruptura Completa com a Tradição de Alianças de Guerra, Frentes de Partisans e Libertações Nacionais
O Estalinismo foi condenado pela primeira vez de forma irrevogável precisamente porque abandonou estes princípios fundamentais do comunismo, lançando os proletários a uma guerra fratricida que os dividiu em dois campos imperialistas, reforçando assim fortemente a propaganda vergonhosa emitida pelo campo ao qual se tinha tornado aliado. Este campo, não melhor que o outro, mascara a sua ganância imperialista, que foi exposta há décadas por críticas marxistas e leninistas, como se o seu respeito pelos métodos "civilizados" de guerra o distinguia do seu adversário. Fingia que mesmo que fosse obrigado a bombardear, "com bombas nucleares", invadir, e finalmente, após ansioso exame de consciência, recorrer a enforcamentos, não era para defender os seus próprios interesses, mas para remover a ameaça aos "valores morais" da civilização e da liberdade humana.

O leninismo tinha sido a luta contra isto quando em 1914 esta mesma vergonhosa burla foi usada pelos traidores da Segunda Internacional para proclamarem a aliança patriótica contra o perigo imaginário da "barbaridade" teutónica ou czarista.

Os imperialistas ocidentais usaram exatamente a mesma burla para entrarem na guerra contra a nova barbaridade nazi ou fascista, e a mesma traição estava contida na aliança concluída entre o Estado Russo e os Estados imperialistas – ao inicio aliados aos próprios nazis – e na aliança forjada entre os partidos dos trabalhadores e os partidos burgueses com vista a ganhar a guerra.

Estas mentiras e traições são uma questão de registo histórico, especialmente agora que encontramos os russos a acusar os americanos de serem agressores ou fascistas, e estes últimos a acusar os russos da mesma coisa, embora admitindo que se tivessem conseguido utilizar a bomba atómica (não pronta em 1941) para massacrar a Europa, tê-lo-iam feito, em vez de utilizar os exércitos compostos por trabalhadores russos mobilizados para a mesma tarefa.

É verdade que o marxismo sempre investigou, e continua a investigar, o que está por detrás de todos os conflitos entre Estados, grupos e frações burguesas, e a partir desta investigação retiraram-se as suas deduções e previsões históricas. Mas opor uma ala civilizada do capitalismo a uma ala bárbara do mesmo sistema é uma negação do marxismo. De facto, de um ponto de vista determinista, pode muito bem ser que o proletariado ganhe mais com uma vitória do partido atacante que utiliza os métodos mais duros de combate do que de outra forma.

Para que as comunidades humanas ultrapassassem a barbaridade, o desenvolvimento de técnicas produtivas era indispensável; mas o homem teve de pagar por esta passagem, sujeitando-se às inúmeras infâmias da civilização de classe, e ao sofrimento resultante da exploração da escravatura, da servidão feudal e da industrialização.

É portanto uma condição fundamental para a reconstrução do movimento revolucionário internacional que as tradições da política chauvinista demonstradas no apoio às alianças de guerra de 1914-18 e 1939-45, frentes populares, resistências guerrilheiras e libertações nacionais sejam igualmente condenadas.

3. Negação histórica do Defencionismo, do Pacifismo e do Federalismo entre Estados

A linha orientadora da posição marxista ao enfrentar a perspetiva de uma nova guerra pode ser encontrada nos escritos de Lenine. Segundo ele, as guerras das grandes potências desde a época da Comuna de Paris têm sido guerras imperialistas. Isto porque 1871 marcou o fim do período histórico em que houve guerras e insurreições que estabeleceram as fronteiras nacionais dos países capitalistas.

Portanto, quando a guerra ocorre, qualquer aliança de classes, qualquer suspensão da oposição de classes e qualquer pressão com objetivos de guerra em mente, constitui uma traição à causa proletária. Para Lenine, também, a revolta das massas de cor nas colónias contra os imperialistas e os movimentos nacionalistas nos países subdesenvolvidos nesta fase moderna do capitalismo só tem um significado revolucionário se a luta de classes nas zonas industrializadas do mundo não for parada, nem afrouxando a sua ligação com os objetivos internacionais da organização proletária. Qualquer que seja a política externa de um Estado, o verdadeiro inimigo interno da classe trabalhadora de cada país é o seu próprio governo.

Neste entendimento – consideravelmente reforçado pelas experiências da 1ª Guerra Mundial, que confirmaram as previsões explícitas feitas nas teses e resoluções da Terceira Internacional até ao momento da morte de Lenine – o período das guerras imperialistas só chegará ao fim com a queda do capitalismo.

O partido revolucionário do proletariado deve portanto negar qualquer possibilidade de uma resolução pacífica dos conflitos imperialistas. Deve combater energicamente quaisquer propostas que mantenham a ilusão de que uma federação, liga ou associação de Estados possa ser capaz de prevenir conflitos, reprimindo "aqueles que os iniciaram" com uma força armada internacional.

Marx e Lenine, embora conscientes da rica complexidade da relação histórica entre guerras e revoluções, condenaram como idealista e burguês a distinção falaciosa entre "agressão" e "defesa" nas guerras entre Estados. Do mesmo modo, o proletariado revolucionário deveria saber que todas as instituições internacionais supranacionais são concebidas apenas como uma força repressiva para conservar o capitalismo, e as suas forças armadas são apenas uma polícia de classe e uma guarda contra-revolucionária.

O verdadeiro comunismo internacional caracteriza-se portanto por uma rejeição total de qualquer propaganda ambígua baseada na defesa do pacifismo e na fórmula estúpida de condenar e punir o “agressor".

4. Condenação de Programas Sociais Partilhados e Frentes Políticas com Classes Não Trabalhadoras
É uma tradição entre a oposição de esquerda de muitos grupos, que remonta aos primeiros erros táticos da Terceira Internacional, rejeitar os métodos de agitação, bastante mal definidos como "bolcheviques", como se fossem incorretos.

Especialmente após a eliminação completa e irrevogável de todas as instituições feudais, trabalhando para o confronto armado final entre o proletariado e a classe dominante para a formação de um Estado operário e de uma ditadura vermelha mundial – que envolve terror político e expropriação de todas as classes privilegiadas – não pode ser alcançado se, em certos momentos e em certos lugares, omitirmos a menção a estes objetivos, que são precisamente o programa do comunismo e do comunismo por si só.

É uma ilusão pensar que se pode conquistar as massas mais rapidamente pondo ordens para a agitação populista no lugar das posições de classe. Do mesmo modo, é uma ilusão vã supor com confiança que os líderes de tal manobras não são, eles próprios, enganados por ela; embora estas promessas sejam frequentemente proclamadas, na melhor das hipóteses, são disparates.

Sempre que o conteúdo principal (que é sempre dito que é transitório) de uma manobra política tem sido uma frente unida com partidos oportunistas, ou tem havido uma exigência de democracia, paz, ou populismo não de  classe, ou pior ainda, solidariedade nacional e patriótica, nunca foi uma questão de deixar cair as cortinas do palco parlamentar – depois de ter enfraquecido a frente inimiga com esta camuflagem astuta - para revelar um exército de soldados da Revolução prontos a abrir fogo sobre os aliados temporários de ontem ao momento crucial.

O que aconteceu foi exatamente o oposto. As massas, juntamente com militantes e líderes, tornaram-se incapazes de ação de classe, e as suas organizações e membros, progressivamente desarmadas e domesticadas por tal preparação ideológica e funcional, acabaram por ser os instrumentos e ferramentas preferidas da burguesia dominante.

Estas conclusões históricas já não se baseiam apenas na crítica doutrinal, derivam da terrível experiência histórica, que custou tanto aos operários de todo o mundo, em trinta anos de esforços falidos.
Por conseguinte, um partido revolucionário nunca mais tentará ganhar apoio em massa com exigências específicas às classes não-proletárias e socialmente híbridas, com a assunção de que estas lutarão pelo comunismo.

Este critério básico particular não se aplica às exigências intermédias e específicas que resultam do antagonismo concreto de interesses entre assalariados e empregadores na esfera económica. Está, contudo, em oposição às exigências sem base de classe ou interclasse, especialmente as políticas, sejam elas feitas por uma nação ou internacionalmente. Este critério, decorrente de uma crítica à frente unida política proletária, ao slogan governo dos trabalhadores, e às frentes populares e democráticas, estabelece uma fronteira entre o movimento apoiado por nós, e aquele que se intitula a Quarta Internacional dos Trotskistas. O nosso movimento está separado da mesma forma de todas aquelas versões semelhantes que sob um título diferente reavivam o slogan da degeneração revisionista "o objetivo não é nada, o movimento é tudo", e que consequentemente acabam por alimentar agitações superficiais desprovidas de todo o conteúdo.

5. Proclamação do carácter capitalista da estrutura social russa
A forma como a economia, a legislação e a administração da União Soviética se desenvolveram nos últimos trinta anos dá uma prova histórica de que a revolução operária pode ser submersa não só numa guerra civil sangrenta como foi o caso em Paris em 1871, mas também por uma degeneração progressiva. Isto é igualmente ilustrado pela repressão implacável, e exterminação completa da vanguarda bolchevique revolucionária, que pagou com todo o seu sangue por ter permitido transformar o partido de uma vanguarda com disciplina de ferro numa massa amorfa e pesada, incapaz de exercer controlo sobre a sua própria legislatura ou executivo.

O carácter monetário e mercantil da maior parte da economia russa, que não é de modo algum contrariado pela presença do controlo estatal de serviços e indústrias vitais (coisa encontrada também em vários grandes países capitalistas), apresenta-nos não um Estado operário ameaçado pela degeneração, ou em processo de degeneração, mas um Estado que já degenerou e no qual o proletariado já não detém mais o poder.

O poder passou para as mãos de uma coligação híbrida e disforme de interesses internos das classes média baixa e alta, de empresários semi-independentes, e das classes capitalistas internacionais. Tal combinação é contrariada apenas na aparência pela existência de uma cortina de ferro comercial controlada pela polícia.


Conclusão: Repúdio de qualquer Apoio ao Militarismo Imperialista Russo, derrotismo aberto contra a América

Como consequência, uma guerra que parece vir do exterior para forçar a cooperação entre as camadas privilegiadas de vários países na administração do Mundo (como todas as guerras) não será uma guerra revolucionária no sentido leninista, ou seja: uma guerra pela proteção e difusão do poder proletário em todo o Mundo. Uma tal eventualidade histórica, que hoje não está na ordem do dia, nunca implicaria fazer justificações para o complexo político e militar de qualquer país; sobretudo porque os Estados revolucionários, se é que existem, não poderiam encontrar aliados no campo capitalista (como foi claramente provado no final da Primeira Guerra Mundial). Tomando a nossa hipotética eventualidade, um forte partido comunista internacional cronometraria os ataques das suas secções contra as potências burguesas, de modo a travar expedições militares "punitivas" contra os países revolucionários, e faria com que os trabalhadores que tinham sido armados e mobilizados para tais objetivos apontassem as suas armas contra aqueles que os armaram.

Há ainda mais razões para que qualquer movimento revolucionário mantenha constantemente uma orientação abrangente anti-capitalista e anti-estatal em todos os casos em que a ofensiva esteja menos desenvolvida, e a luta de menor potencial. Os comunistas sabem que só há uma forma de impedir os capitalistas de se entregarem a expedições punitivas contra o proletariado: devem eliminar a classe capitalista, e isto não pode ser feito a menos que a vanguarda da classe trabalhadora esta pronta em todo o lado para a guerra.

Mesmo um desarmamento temporário da consciência de classe, seja ideológico, organizacional ou material, é portanto uma traição onde quer que ocorra e sempre que ocorra. O Centro do movimento comunista nunca deve sucumbir a ele, mesmo que seja uma disciplina firmemente estabelecida que o Centro seja responsável pela escolha do momento, e das formas, que a ação do partido toma. Qualquer partido ou grupo que aceite ser desarmado de tal forma, especialmente se se referir a si próprio como trabalhadores, comunista ou socialista, é o primeiro inimigo a combater e subjugar. Pois é precisamente a sua existência, e a função que desempenham, que está a impedir o derrube do sistema capitalista, um derrube previsto por Marx e Engels e esperado com convicção por todos os marxistas revolucionários.

A estratégia completamente oposta que foi aplicada durante a última guerra pelos resíduos da internacional comunista, e que levou à sua vergonhosa auto-liquidação, foi empreendida para que "os governos ocidentais não fossem impedidos nos seus esforços de guerra", mas teve apenas o efeito de reforçar o poder imperialista ocidental. Demasiado tarde, o governo russo e os círculos militares admitiram que estes últimos eram mais uma ameaça aos seus objetivos do que a Alemanha, objetivos que nessa altura eram já abertamente nacionais e sem qualquer base de classe.

No entanto, o novo recurso às acusações de barbaridade e fascismo não é menos falso e sinistro (acusações que são repetidas logo pelo "mundo livre" contra a Rússia) e os trabalhadores revolucionários da vanguarda devem procurar reunir as suas forças para um combate no qual não podem esperar nem ajuda nem munições das forças militares opostas de hoje. Devem trabalhar na esperança, e certeza, de que a crise e a queda do capitalismo, esperada em vão durante 150 anos, irá atingir o coração dos Estados altamente industrializados: a até agora invencível guarda negra do Mundo.