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Bolívia A Greve Nacional Indefinida desviada para uma Insurreição Reformista e Policlassista Só a luta revolucionária da classe trabalhadora pode opor‑se a ela (Do relatório apresentado na reunião geral dos dias 23 e 24 de maio) |
A greve nacional indefinida que hoje sacode a Bolívia não é um acontecimento isolado nem um simples conflito sindical por melhorias setoriais; é uma manifestação aberta do acirramento das contradições de classe e de como a luta de classes pode ser retomada num período de profunda crise histórica do modo de produção capitalista. Do ponto de vista marxista, os acontecimentos no altiplano andino ilustram claramente como as crises de acumulação do capital descarregam-se violentamente sobre as costas do proletariado, ao mesmo tempo que evidenciam o papel amortecedor e traidor das direções sindicais reformistas e dos partidos oportunistas.
A Bolívia encontra-se na encruzilhada de uma dupla contradição. Por um lado, a contradição interna e insuperável entre capital e trabalho, agudizada por um severo plano de ajuste fiscal burguês. Por outro, sua condição de país subordinado e fornecedor de matérias-primas, o que o transforma em campo de batalha na atual disputa interimperialista global pelo controle de recursos energéticos e minerais estratégicos. Este relatório analisa a greve geral em curso, desmascarando o caráter de classe do Estado boliviano (como o de todos os Estados), os limites do sindicalismo colaboracionista e a urgente necessidade histórica do ressurgimento da independência política do proletariado por meio de seu partido de classe.
Por outro lado, a crise econômica — com suas expressões sociais e políticas — que atravessa a sociedade boliviana não deriva da "má gestão", da corrupção das camarilhas políticas que controlaram o governo ou do fracasso do demagógico "processo de mudanças" e sua suposta orientação "socialista", apregoado pelos oportunistas do MAS. Trata-se de uma crise sistêmica do capitalismo mundial no qual a Bolívia está inserida e que não poderá ser resolvida com reformas, com mudanças de governo ou com manobras contingentes em matéria fiscal e de reestruturação do Estado burguês. E, evidentemente, nem os oportunistas do MAS (hoje fraturado por disputas internas) nem os partidos da direita que hoje controlam o governo poderão (nem quererão) conduzir qualquer transformação revolucionária; assumirão apenas os ajustes gatopardistas para que nada mude e o capitalismo se mantenha da única maneira possível: aprofundando a exploração do trabalho assalariado e proletarizando setores da pequena burguesia.
Ao governo de plantão cabe assumir os ajustes pendentes ao capitalismo de Estado boliviano que, baseando-se no controle da extração e comercialização de matérias-primas presentes em seu subsolo, gera uma renda que chega à burguesia, à pequena burguesia e às transnacionais por meio de concessões, contratos, alianças comerciais, mas também através de redes de corrupção ou de tratamentos preferenciais às folhas de pagamento de diretores e gerentes e à faixa social da chamada "aristocracia operária", e ainda por meio de diferentes programas populistas que, embora se apresentem como instrumentos de "inclusão social", na realidade promovem o clientelismo, a desmobilização dos oprimidos e, no percurso, também geram benefícios para diversas empresas vinculadas ao poder burguês. Mas esse modelo tende recorrentemente a entrar em crise quando caem os preços internacionais dos comodities controlados pelo Estado, quando o peso da dívida sufoca o fôlego financeiro e quando o tamanho do Estado, sua folha de pagamento inchada, seus numerosos ministérios, empresas e institutos vinculados e programas sociais (populismo/clientelismo) tornam-se insustentáveis e precisam ser reestruturados ou simplesmente eliminados à base de demissões, reestruturações, cortes orçamentários e privatizações.
Trata-se de um ciclo econômico que conduz à alternância política de governos da
esquerda oportunista, nacionalista e eleitoreira, propensos a ampliar o tamanho
do Estado, e governos da chamada direita, que tendem a ser identificados na
propaganda da "esquerda" como neoliberais e defensores da redução do tamanho do
Estado. Mas ambas as correntes apenas assumem as variantes táticas "anticrise"
da burguesia, e a história — inclusive a recente — demonstra que o crescimento
ou a diminuição do Estado foi assumido indistintamente pela esquerda e pela
direita burguesas. É isso que faz coincidir — embora tentem negá-lo com seus
discursos e sua propaganda — as políticas dos governos de direita na Argentina e
em El Salvador com as dos de "esquerda" na Venezuela, Chile e Brasil, por
exemplo. E é essa a situação que observamos na Bolívia, onde se avança um ajuste
econômico e uma reestruturação do Estado que coube enfrentar ao governo de
direita de Paz, mas que muito bem teria de ser assumido pelo MAS caso
controlasse o governo. E em ambos os casos, escolherão o caminho de colocar todo
o peso da crise sobre os ombros dos trabalhadores.
Antecedentes econômicos, políticos e sociais
O estopim social de maio de 2026 é o resultado direto do esgotamento do modelo de capitalismo de Estado que imperou sob o reformismo burguês e da posterior transição para um esquema de austeridade clássica. Após a saída do governo de Luis Arce no final de 2025, a posse de Rodrigo Paz Pereira marcou uma virada explícita em direção à chamada "ortodoxia econômica", buscando corrigir desequilíbrios fiscais e facilitar o manejo da crise pelos capitalistas, como sempre, aumentando a exploração dos trabalhadores. A administração Paz Pereira implementou de imediato o Decreto Supremo 5516, um plano de ajuste fiscal draconiano orientado a "sincerar" a economia capitalista nacional mediante o reordenamento das finanças e o corte brutal dos gastos estatais, reduzindo as folhas de pagamento do Estado entre 25% e 30%.
Embora o novo governo burguês tenha conseguido estabilizar temporariamente as variáveis macroeconômicas de interesse dos tecnocratas e dos credores internacionais - elevando as Reservas Internacionais Líquidas (RIL) a 3,813 bilhões de dólares no primeiro trimestre de 2026 e contendo parcialmente o dólar paralelo —, a base material da sociedade carrega uma herança catastrófica. O ano de 2025 fechou com uma inflação superior a 20%, um desabastecimento histórico de combustíveis líquidos e uma perda massiva do poder aquisitivo dos salários. A paciência do proletariado e das massas semiproletarizadas chegou ao limite, detonando as mobilizações de massa que hoje configuram a geografia do protesto no país.
A greve geral indefinida teve início em 4 de maio de 2026. No momento da redação deste relatório, a greve já acumulava 3 semanas de desenvolvimento contínuo, com possibilidade de se prolongar no tempo diante da intransigência governamental e patronal.
O conflito tem alcance nacional, mas sua força e intensidade são geograficamente díspares. O epicentro absoluto é o departamento de La Paz e a cidade de El Alto (onde se concentram 50 dos 67 bloqueios rurais do país). Cochabamba atua como o nó crítico de paralisia nas rotas para o ocidente (com pontos-chave em Quillacollo e a ponte Huayculi). Em contraste, a região oriental de Santa Cruz exibe menor adesão de classe à greve, embora se encontre economicamente asfixiada pelo isolamento viário provocado pelos cortes de estrada. A cidade de La Paz foi sendo progressivamente paralisada pelo cerco dos bloqueios, notando-se a paralisação do transporte, a suspensão da coleta de lixo (com as ruas cobertas de montes de detritos), a escassez de alimentos e o alerta dos hospitais pela insuficiência de insumos médicos; tudo isso enquanto chegam à cidade contingentes cada vez maiores de manifestantes após longas marchas de outras regiões.
Quanto à composição social dos participantes, encontramos o seguinte:
- O Proletariado e os Setores Explorados: Convocados pela Central Obreira Boliviana (COB) após um multitudinário cabildo em El Alto. Participam com grande combatividade o magistério urbano (organizado na Federação Departamental de Trabalhadores do Magistério Urbano), os operários do volante (Federação de Motoristas de La Paz) e o proletariado mineiro de base. A Federação de Motoristas de La Paz não é uma organização homogênea de classe; ao contrário, agrupa e amalgama em seu seio tanto proprietários de unidades de transporte (pequena burguesia) quanto trabalhadores assalariados ou superexplorados (proletariado do volante).
- Campesinato e Pequena Burguesia Rural: Mobilizados massivamente por meio dos camponeses aimarás de 29 províncias, os Interculturalistas (camada de pequenos e médios produtores agrícolas privados) e a Federação Departamental de Cooperativistas Mineiros (Fedecomin). Trata-se de setores que não se identificam com a abolição da exploração do trabalho assalariado.
- O Oportunismo Político: Frações políticas e sociais ligadas ao "evismo" (afins a Evo Morales) que não representam uma alternativa revolucionária, mas instrumentalizam e parasitam a raiva das bases para pressionar o Executivo e reposicionar-se na disputa pelo controle da administração do Estado burguês. Embora a direção desse movimento não seja necessariamente protagonizada por Evo Morales, para efeitos práticos são correntes políticas oportunistas afins as que conduzem as mobilizações e bloqueios e a exigência de renúncia do presidente Paz.
- O Estado Burguês e seus Administradores: Encabeçados pelo presidente Rodrigo Paz Pereira, respaldados pela maquinaria judicial e policial, e prontos a utilizar as Forças Militares em tarefas de repressão interna.
- A Burguesia Nacional e Transnacional: Representada pelo empresariado agropecuário, agroindustrial (particularmente o cruceño), exportador, turístico e avícola. Por trás das cenas, operam os grandes consórcios capitalistas e interesses imperialistas que cobiçam o gás, os minerais e as reservas de lítio do país.
A classe operária e os setores oprimidos que participam dos protestos recorrem a seus métodos históricos de luta, combinando a greve nas minas e nas escolas com os bloqueios de estradas massivos, registrando mais de 67 pontos de interrupção do trânsito em nível nacional. Essa estratégia provocou um cerco quase total aos principais centros urbanos do ocidente, paralisando o transporte interdepartamental e detendo o fluxo logístico de mercadorias. A resposta do Estado burguês se dá mediante a criminalização judicial, catalogando o protesto como "ilegal" ou "sedicioso", combinada com o uso da força militar.
A resposta do Estado capitalista boliviano diante da irrupção operária combinou
o terror policial com o cerco legal. No momento desta atualização, as forças
combinadas da Polícia Boliviana e das Forças Militares — mobilizadas de forma
excepcional em tarefas de repressão interna para desbloquear rodovias principais
— atuaram com extrema violência. Até o momento registram-se ao menos 4 mortes
indiretamente relacionadas ao bloqueio logístico e atrasos em ambulâncias, além
das vítimas diretas dos recentes confrontos violentos nas estradas. Dezenas de
trabalhadores, manifestantes e membros de comunidades feridos por gás
lacrimogêneo, balas de borracha e impactos físicos nos enfrentamentos nas rotas
do ocidente. Dezenas de grevistas sob processos de criminalização judicial,
indiciados por "sedição" ou "greve ilegal" pelo aparato de justiça do regime
capitalista.
Situação da economia do país e seu impacto nos trabalhadores
A economia boliviana está imersa em uma crise que se expressa em estagnação com alta inflação — reflexo local da crise geral de superprodução do capital em nível internacional. Após ingressar em uma chamada "recessão técnica" no segundo semestre de 2025 (encerrando aquele ano com um PIB de -0,5%), as projeções para 2026 apontam para uma contração severa de -3,2% do PIB. As atividades extrativas tradicionais (gás e mineração), pilares da captação de renda por parte do Estado, acumulam quedas drásticas devido ao esgotamento de poços e à falta de investimentos.
Esse panorama macroeconômico se traduz em uma agressão brutal contra as condições de vida e de reprodução da força de trabalho. Após fechar 2025 com 20,2% de inflação, o custo da cesta básica familiar continuou escalando em 2026. Alimentos essenciais (pão, carnes, verduras) sofrem aumentos agressivos pela escassez de divisas e pelos problemas de importação. O governo de Rodrigo Paz Pereira fixou o Salário Mínimo Nacional em 3.300 bolivianos (um incremento nominal de 20%) mediante o Programa PEPE (Programa Extraordinário de Proteção e Equidade). O salário real encontra-se pulverizado, com uma perda estimada de cerca de 60% do poder aquisitivo real acumulada no último ano. O incremento nominal é fictício diante da desvalorização efetiva nos mercados.
No entanto, o mercado de trabalho é composto majoritariamente por trabalhadores informais. O setor informal representa a grande maioria da força de trabalho ocupada ou subempregada do país. Esse imenso contingente abrange trabalhadores por conta própria e diaristas. Vive dia a dia para subsistir. Constitui o subproletariado urbano e aqueles trabalhadores despossessados dos meios de produção que vendem sua força de trabalho cotidianamente. Não exploram mão de obra alheia, carecem de capital e sua única fonte de subsistência é o trabalho vivo. Historicamente pertencem às fileiras da classe explorada e sofrem brutalmente os efeitos diretos da inflação e do desabastecimento provocado pelas crises de acumulação. Para esse segmento de trabalhadores não se garante salário mínimo nem qualquer outro tipo de conquista trabalhista.
Os Pequenos e Médios Empresários ou Comerciantes (Pequena Burguesia): Embora operem em condições de informalidade legal, esses sujeitos possuem pequenos meios de produção, mercadorias ou capital comercial. Seu objetivo econômico não é a mera sobrevivência assalariada, mas a realização do lucro mercantil e a acumulação privada. Com frequência exploram, formal ou informalmente, trabalhadores familiares ou assalariados precarizados. Sua posição de classe os inclina politicamente para a reação: rejeitam as greves e os bloqueios operários porque paralisam a rotação de suas mercadorias e ameaçam sua pequena propriedade, exigindo ao Estado burguês ordem, créditos, subsídios e paz social para continuar suas atividades comerciais.
Embora o setor informal rejeite formalmente a greve por necessidade de subsistência, é asfixiado pelo desabastecimento e pela falta de transporte provocados pela greve. Dentro de seu enfoque policlassista, a COB incorpora em suas exigências as reivindicações com as quais esse setor da pequena burguesia pode se identificar.
As condições e o meio ambiente de trabalho se deterioraram ao extremo. O
incremento nominal do salário mínimo para 3.300 bolivianos é uma zombaria diante
do custo real de vida, forçando a classe trabalhadora a prolongar suas jornadas
laborais reais (pluriemprego, subemprego e informalidade) para compensar a perda
de 60% de seu poder de compra.
Reivindicações apresentadas pelos dirigentes da greve
O caderno de reivindicações apresentado pela burocracia da COB aglutina mais de 112 demandas de caráter trabalhista e político. O núcleo das exigências das centrais sindicais se sintetiza nos seguintes pontos:
1. Reajuste Salarial Indexado: Exigência de um aumento salarial real indexado diretamente ao custo atual da cesta básica familiar, rejeitando os tetos oficiais e os aumentos cosméticos do governo. Essa exigência foi sendo ofuscada por reivindicações de pequenos e médios empresários do transporte e do comércio, bem como de camponeses e indígenas.
2. Revogação de Normas Antitrabalhistas ou que Afetam o Campesinato: Rejeição contundente às medidas de descentralização educacional aplicadas contra o magistério. Desprezo pelas manobras tépidas do Executivo (como a revogação da Lei 1720, que permitia converter a pequena propriedade agrária em ativo financeiro reconhecido pelo sistema bancário), consideradas insuficientes, com exigência da demissão imediata dos ministros responsáveis pelo ajuste fiscal.
3. Abastecimento e Qualidade dos Combustíveis: Exigência do setor de transporte pesado e urbano para a solução imediata do desabastecimento logístico e da péssima qualidade dos combustíveis distribuídos, que arruínam suas ferramentas de trabalho. Reivindicação dos pequenos e médios empresários do transporte.
Embora algumas demandas econômicas dos trabalhadores tenham sido apresentadas, expressando as necessidades imediatas da classe, a direção da COB conferiu ao seu caderno de exigências um caráter nitidamente policlassista, corporativo e reformista. Não questionam a raiz da exploração capitalista nem a propriedade privada dos meios de produção; limitam a luta a uma disputa distributiva dentro dos marcos da legalidade burguesa.
Mas rapidamente o "evismo" impulsionou nesse movimento a exigência de renúncia do presidente Paz e a convocação de eleições presidenciais antecipadas, fazendo as demais reivindicações passarem a segundo plano. Isso colocou o movimento num plano insurrecional, mas não uma insurreição contra o capitalismo, e sim por sua continuidade, sob a figura de uma mudança de governo, mantendo a democracia burguesa. Dessa maneira, caso a tendência insurrecional no movimento se fortaleça, os desenlaces que se configuram a partir dessa situação são: a) a manutenção do governo atual, após negociação com o movimento grevista; b) renúncia do presidente, designação de um governo de salvação nacional e convocação de eleições antecipadas; c) golpe de Estado para deter o movimento insurgente e blindar militarmente o ajuste fiscal em curso (Decreto 5516). Mas em todos esses possíveis desfechos, a burguesia continuará no poder, seja que governe apoiada nos partidos da direita, ou nos partidos da esquerda oportunista como o MAS, a corrente "evista" e similares ("movimentos sociais" e a COB), ou colocando o controle do governo nas mãos de uma Junta Militar.
O presidente Paz anunciou na quarta-feira, 20 de maio, uma reestruturação de seu gabinete de governo, assegurando que melhorará a comunicação com os diferentes setores sociais. Da mesma forma, o presidente rejeitou os manifestantes, que chamou de vândalos, e questionou fatores políticos que não nomeou, mas com clara referência a Evo Morales e seus seguidores, que teriam uma "bandeira ideológica" e estariam vinculados ao "narcotráfico e ao ilegal". Ratificou seu plano de ajuste macroeconômico, a reestruturação do Estado e o desmantelamento de mecanismos de corrupção, segundo ele desenvolvidos durante os últimos 20 anos de governos do MAS, convocando um "Conselho Econômico e Social" no qual chamou a participar as organizações sociais envolvidas no conflito. Ainda assim, dada a continuidade dos bloqueios, o presidente solicitou a criação de um "corredor humanitário", referindo-se à necessidade de dar acesso em El Alto e La Paz a insumos médicos, alimentos e combustíveis, com o que o governo reconheceu indiretamente que não tem controle da situação. E em todos os seus anúncios, nem sequer mencionou o tema do salário.
Enquanto o presidente do governo burguês oferece um "Conselho Econômico e Social" (uma mesa de conciliação policlassista), recusa-se categoricamente a discutir o salário da força de trabalho assalariada porque sua missão histórica atual é sustentar a taxa de lucro patronal mediante a queda do salário real.
Em 21 de maio concretizou-se o acesso de uma caravana de caminhões-tanque com combustível e insumos médicos, que chegaram a La Paz sob controle das forças policiais. Mas o governo ainda não tem controle da situação. O fato de que o governo tenha de recorrer à aviação militarizada para transportar rações insuficientes de frango e porco, e dependa do auxílio logístico de governos burgueses vizinhos como Argentina e Chile, demonstra que o fluxo ordinário da circulação do capital está rompido. A entrada de caminhões-tanque com escolta armada não é uma vitória da ordem, mas uma operação excepcional que ratifica que o território continua cercado pelas bases em luta.
O movimento grevista, dominado pelo interclassismo e pelo oportunismo, mantém-se firme em sua exigência de renúncia do presidente Paz e, portanto, recusa-se a dialogar com um "governo agonizante" e rejeita o chamado ao Conselho Econômico e Social, qualificado como uma manobra do governo, ao qual não querem reconhecer nem dar oxigênio com sua presença.
A reação também se mobilizou "em apoio ao governo e em defesa da democracia" na
capital. Enquanto isso, os organismos internacionais pronunciaram-se em respaldo
ao governo de Paz, e o mesmo fez o governo dos EUA, que emitiu um pronunciamento
de apoio ao atual governo da Bolívia.
Posições dos diferentes fatores políticos, sindicais e empresariais
A greve polarizou os campos de classe no cenário nacional:
O Governo Burguês (Paz Pereira): Mantém uma posição inflexível em defesa dos decretos econômicos de austeridade (Decreto Supremo 5516), argumentando que são necessários para frear a chamada "estagflação". Acusa a COB de promover uma greve "ilegal" e tacha os bloqueadores de cometerem atos de "sedição" a serviço de interesses obscuros.
O Empresariado (Monopólios e Latifundiários): Expressa rejeição absoluta. Os setores agropecuário, avícola, exportador e turístico denunciam prejuízos milionários e exigem mão de ferro ao Estado, alegando que o isolamento dos centros produtivos "destrói o emprego formal" (isto é, detém a extração de mais-valia).
A Oposição Burguesa Tradicional e Comitês Cívicos: Figuras como Carlos Mesa denunciam que o país está "sequestrado por minorias violentas". Por sua vez, o Comitê Pró-Santa Cruz utiliza uma narrativa anticomunista e oportunista, acusando Evo Morales de usar os protestos para gestar um "golpe de Estado". Ambas as facções burguesas (governo e oposição) coincidem na necessidade de esmagar a resistência operária.
Os Partidos Oportunistas ("Evismo"): Montam-se sobre o conflito legítimo das bases para canalizar o descontentamento em direção a saídas eleitorais ou disputas palacianas de poder, traindo o potencial revolucionário da greve para convertê-lo em moeda de troca da política burguesa.
Os Organismos do Estado (Defensor do Povo): Operam como pacificadores e
mediadores institucionais, buscando diluir o conflito de classes em mesas de
diálogo estéreis. Alertam hipocrisia sobre o uso das Forças Militares enquanto
tentam salvar a ordem constitucional burguesa.
A traição histórica e o oportunismo da COB
Para desvendar a verdadeira natureza da Central Obreira Boliviana (COB), é indispensável analisar seu comportamento político ao longo do tempo, o que evidencia sua total submissão ao Estado burguês conforme a fração que o administre. Sob os governos reformistas de Evo Morales e Luis Arce, a burocracia sindical da COB atuou como um apêndice descarado do poder executivo, pacificando conflitos, assimilando as estruturas corporativas e desativando na raiz qualquer lampejo de independência e iniciativa revolucionária do proletariado. Nesses períodos, as demandas operárias foram sistematicamente engavetadas e sacrificadas em nome da estabilidade do "capitalismo de Estado" andino e do falso discurso do "processo de mudança".
Ao contrário, a atual agressividade e a convocação veloz à greve geral indefinida frente ao governo direitista de Rodrigo Paz não respondem a um súbito despertar classista de sua direção traidora, mas ao seu oportunismo político mais abjeto. A cúpula da COB alinhou-se organicamente com o bando burguês "evista" (afim a Evo Morales), o qual instrumentaliza e parasita a raiva legítima das bases operárias.
Não se busca destruir o Estado capitalista, mas desgastar o administrador atual
(Paz Pereira) para forçar um reordenamento e reposicionar sua fração política
aliada na disputa pelo controle do aparato fiscal e governamental. Com isso, a
direção da COB confirma seu papel histórico contrarrevolucionário, transformando
as reivindicações operárias contidas no caderno de petições interclassista em
mera moeda de troca nas disputas interburguesas. No auge do conflito, o
presidente da COB passou à clandestinidade.
Perspectivas do proletariado boliviano diante da ausência de uma direção
revolucionária
O drama histórico da classe operária boliviana fica novamente evidente nessa greve nacional indefinida. O proletariado mineiro, do magistério e do transporte demonstra uma grande disposição combativa, capaz de paralisar os eixos vitais do país, integrado a setores indígenas, camponeses e da pequena burguesia descontente. No entanto, a efetividade logística dos bloqueios contrasta com a debilidade política e ideológica das organizações que agrupam os assalariados. Isso se evidencia em como as reivindicações salariais e trabalhistas foram ofuscadas pela exigência de renúncia do presidente e pelas exigências dos pequenos empresários, como a rejeição aos preços atuais dos combustíveis.
Ao carecer de uma direção revolucionária com um programa claro de derrubada do
capitalismo, as massas se encontram presas entre o martelo do ajuste fiscal
governamental e a bigorna do oportunismo reformista ("evismo" e a burocracia da
COB). A curto prazo, as perspectivas são sombrias: a greve corre o risco de se
desgastar, ser traída em troca de migalhas salariais nominais ou ser utilizada
para o retorno de frações burguesas populistas que continuarão com a agenda de
submissão ao capital financeiro.
A necessidade imperiosa da retomada da luta de classes
Como ensinava Lenin em O imperialismo, fase superior do capitalismo, os monopólios e as potências imperialistas (sejam do bloco ocidental ou euroasiático) que disputam o lítio, o gás e os recursos da Bolívia jamais permitirão uma emancipação real das massas trabalhadoras e sua ruptura com as vias reformistas, o policlassismo ou o nacionalismo. O capitalismo em crise não tem concessões duradouras a oferecer. Por outro lado, o movimento operário deve entender que seu principal inimigo — a burguesia — está dentro das fronteiras bolivianas, e o chamado a enfrentar o inimigo externo (qualquer dos imperialismos) acaba sendo uma distração e um desperdício de energias impulsionado pelo discurso desse "anti-imperialismo" burguês da esquerda oportunista.
Para romper esse círculo vicioso de exploração e traição sindical, impõem-se as seguintes tarefas históricas:
1. A Filiação Militante ao Partido Comunista Internacional: A greve atual demonstra que a combatividade espontânea e a força organizativa da COB são insuficientes quando falta o fator político subjetivo central: o partido de vanguarda da classe operária. Apenas o partido comunista internacional, estritamente ancorado na doutrina marxista da revolução e da ditadura do proletariado, pode unificar as lutas dispersas dos mineiros, professores, motoristas, subproletários urbanos e trabalhadores assalariados em geral, e conduzir essas forças ao derrocamento da burguesia.
2. Continuidade, ampliação e aprofundamento da Greve, eliminando os serviços mínimos e incorporando trabalhadores de setores que ainda não aderiram. Recusa à participação no Conselho Econômico e Social convocado pelo presidente Paz. Passar de uma insurreição como expressão da confrontação interburguesa para uma insurreição proletária. Nem "Governo de Salvação Nacional", nem "eleições antecipadas", nem "Ditadura Militar". Insurreição operária pelo derrocamento da burguesia e pela implantação da Ditadura do Proletariado.
3. Seja qual for o curso político — manutenção do governo atual ou mudança de governo burguês —, o movimento deve assumir de maneira intransigente a exigência do aumento geral dos salários, assegurando-se de que esse aumento se aplique e beneficie inclusive os aposentados e os trabalhadores informais. A Greve Geral não deve ser encerrada sem a conquista do aumento salarial como reivindicação principal a exigir ao governo e aos patrões.
4. A Ruptura com o Oportunismo: O proletariado boliviano deve romper os laços que o atam às facções burguesas de qualquer signo (pazistas ou evistas) e varrer a burocracia sindical colaboracionista que transforma o caderno de petições em um caderno de traição, interclassismo e confrontação interburguesa.
5. O Ressurgimento de Verdadeiros Sindicatos de Classe: É vital a reconstituição dos sindicatos que unam efetivamente a classe operária, sem as divisões por nacionalidade ou ofício, e que assumam os métodos de luta como a greve indefinida e sem serviços mínimos. Sindicatos que não centrem sua organização nos locais de trabalho, mas na organização local, regional e nacional à qual se integrem trabalhadores ativos, aposentados e desempregados, praticando o debate em assembleia e a participação de base nas diferentes comissões requeridas para a luta. Verdadeiros órgãos de defesa do salário e de resistência contra o capital.
Apenas a constituição do proletariado em partido político independente permitirá transformar a atual resistência defensiva contra a exploração capitalista e o ajuste fiscal em uma ofensiva revolucionária para a destruição do Estado burguês, a expropriação dos monopólios transnacionais e nacionais, e o desencadeamento da transformação socialista.