Partido Comunista Internacional

O terremoto na Venezuela serve a mesa à rapina do capital pelo negócio da reconstrução, embora o sangue das vítimas ainda esteja fresco


Um violento "sismo duplo" — um terremoto de magnitude 7,2 seguido de um segundo evento de 7,5 Mw com epicentro no subsolo do estado de Yaracuy — sacudiu o norte e o centro da Venezuela na última quarta-feira, 24 de junho. Embora o foco geofísico tenha se localizado em terras yaracuyanas, onde as afetações à infraestrutura foram felizmente menores, a onda destrutiva descarregou sua verdadeira fúria material sobre os grandes centros de concentração urbana e os eixos da especulação imobiliária costeira: Caracas, La Guaira, Tucacas, Morón e Puerto Cabello.

Enquanto os aparatos de propaganda da imprensa burguesa e do reformismo local derramam lágrimas de crocodilo apelando à "unidade nacional" e à "solidariedade patriótica", a crua realidade das relações de produção capitalistas se impõe sobre os escombros. Longe de ser uma fatalidade puramente geofísica, a tragédia material demonstra com nitidez as teses comunistas: a natureza acaba fazendo o trabalho sujo que costumam executar as guerras imperialistas, aportando a destruição violenta de forças produtivas e de capital constante de que o capitalismo senil necessita desesperadamente para se oxigenar quando se encontra asfixiado por suas crises cíclicas de superprodução. Antecedentes históricos: a recorrência da negligência burguesa

A história sísmica da república burguesa venezuelana está marcada por catástrofes cujos altos custos humanos refletem a absoluta subordinação da moradia à renda imobiliária e ao lucro patronal.

1812 e 1900: Desde os grandes sismos do século XIX, o amontoamento da força de trabalho em estruturas vulneráveis evidenciou a nula preocupação das classes dominantes com as condições de vida dos despossuídos.

O Terremoto de Caracas de 1967: O sismo de 29 de julho de 1967 (magnitude 6,5) fixou o precedente moderno. O colapso de edifícios residenciais em zonas de alta densidade como Altamira e Los Palos Grandes (Caracas) desnudou a especulação do solo urbano e o barateamento criminoso dos materiais por parte da burguesia da construção. Quase sessenta anos depois, a geografia da destruição se repete nos mesmos municípios da capital e se estende pelo litoral central, demonstrando que sob o capitalismo não existe memória científica, mas unicamente a memória do dividendo. Magnitude da tragédia: o sangue operário aduba o terreno dos centros turísticos e industriais

As estimativas científicas e os primeiros informes locais confirmam o colapso massivo da infraestrutura habitacional, hoteleira e de serviços. Os maiores estragos se concentram no Distrito Capital e no estado de La Guaira (declarada zona de catástrofe), assim como no eixo costeiro de Tucacas, Morón e Puerto Cabello. Reportam-se mais de 2.500 mortes confirmadas, milhares de feridos e uma pavorosa cifra que supera os 50.000 desaparecidos sob as estruturas destruídas. Estima-se que o número de vítimas aumente até quase coincidir com o de desaparecidos. Para o capital, esse salto na escala da morte, de milhares a dezenas de milhares, não é um freio: é a confirmação da magnitude do "espaço limpo" e da magnitude da futura força de trabalho excedente que estará disposta a aceitar as condições mais miseráveis nos contratos para a reconstrução que assumam as empresas de construção nacionais e internacionais.

Estatisticamente, a carnificina humana tem um viés de classe inequívoco. Foi, é e será principalmente o sangue operário o que se derrama nesses eventos. Enquanto os burgueses e a alta burocracia se resguardam em seguras mansões privadas construídas sob rigorosas normas de engenharia, o proletariado urbano e os trabalhadores do setor de serviços foram sepultados vivos. O colapso golpeou com sanha os blocos habitacionais populares massificados de Caracas e La Guaira, mas também as estruturas hoteleiras e comerciais de Tucacas e do eixo Morón–Puerto Cabello, onde a força de trabalho se amontoa para dinamizar o aparato turístico e portuário regional.

A onda de morte e destruição que o terremoto trouxe não veio subverter um "admirável mundo novo", um "paraíso", mas uma região na qual a população assalariada vive atormentada por salários de fome, pelo desemprego, pelo acesso insuficiente aos alimentos, à água potável, a um serviço elétrico estável, a um sistema de saúde competente; ou seja, um país onde é visível todo o efeito social depauperante da sísmica economia capitalista. A falsa solidariedade e o negócio da reconstrução

Após o desastre, abrirá caminho de imediato a "orgia da reconstrução", um lucrativo festim onde as potências imperialistas e as frações da burguesia local disputarão as cotas de valorização do capital sobre zonas estratégicas para o mercado do ócio burguês e a logística manufatureira. 1. O mercado de divisas desnuda o cinismo mercantil

Enquanto a população agonizava sob os escombros, a economia de mercado demonstrou sua total indiferença humanitária. Entre 24 de junho e 30 de junho, a taxa oficial de câmbio do dólar publicada pelo Banco Central da Venezuela (BCV) saltou de 621,52 bolívares por dólar para mais de 633,36 bolívares por dólar, registrando um aumento direto de quase 12 bolívares em menos de uma semana. Essa desvalorização de fato em meio à pior emergência do século evidencia que a lei do valor e a especulação financeira não conhecem trégua nem piedade.

Mas o governo, os empresários, as centrais sindicais e os oportunistas de todas as cores manifestaram sua condição "humanitária" com o anúncio concertado do primeiro de maio de não aumentar os míseros salários que se pagam na Venezuela. Enquanto isso, como exemplo do humanitarismo empresarial, 30 trabalhadores do supermercado Catania, em Puerto Cabello, renunciaram em bloco quando o patrão quis obrigá-los a trabalhar apesar de um edifício vizinho a essas instalações se encontrar inclinado e propenso a desmoronar e cair sobre esse estabelecimento comercial. 2. A controvérsia politiqueira frente ao urbanismo do desastre

Nos próximos dias, os partidos da ordem burguesa desatarão uma estéril controvérsia midiática acerca da qualidade dos materiais e das violações aos códigos de edificação. Trata-se de uma cortina de fumaça ideológica. O debate oculta que muitas dessas macroconstruções nem sequer deveriam ter existido. O modo de produção capitalista impulsiona irracionalmente altíssimas concentrações de população em cidades como Caracas e edificações de grande altura desprovidas de sentido técnico, com o único fim de maximizar a renda fundiária.

Esse gigantismo é particularmente grotesco na zona turística de La Guaira e no eixo de praia integrado por Tucacas–Morón–Puerto Cabello. Esses empreendimentos turísticos massivos, complexos de marinas hoteleiras e torres de veraneio agridem criminosamente a paisagem e o equilíbrio ambiental, tendo sido erguidos sobre solos vulneráveis exclusivamente para a lavagem de capitais, a especulação imobiliária e a captura do excedente econômico da classe dominante. 3. O desembarque imperialista dos EUA como administrador dos contratos

A ajuda de emergência mobilizada pelo governo dos Estados Unidos não responde a fins filantrópicos. No contexto atual de ocupação e tutela política de fato na Venezuela, após o sequestro do presidente Maduro em janeiro passado, a administração estadunidense controla e bloqueia os fundos da venda do petróleo venezuelano no exterior.

Portanto, o imperialismo norte-americano possui a chave do dinheiro e — sob a fachada de assistência humanitária canalizada por meio de agências transnacionais — administrará diretamente a alocação dos multimilionários contratos de reconstrução viária, portuária, hoteleira e de moradia. As corporações estadunidenses da construção desembarcam no litoral central e ocidental junto a seus sócios e testas de ferro da burguesia local (tanto da oposição tradicional quanto dos grupos empresariais associados à República Bolivariana, indiferentes à substituição de Maduro por Delsy Rodríguez) para repartir entre si o butim da reconstrução da infraestrutura danificada e o relançamento do rentável negócio turístico de praia.

Não é, em absoluto, um fato casual nem uma mostra de filantropia que o Fundo Monetário Internacional e o Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe (CAF) tenham anunciado, de forma quase simultânea e expedita, a formação de fundos especiais de financiamento para a reconstrução da infraestrutura colapsada. O capital financeiro transnacional opera com a velocidade do abutre: onde o reformismo e o sentimentalismo cidadão veem uma tragédia humana, os tecnocratas do imperialismo veem uma janela de oportunidade extraordinária para relançar os ciclos de acumulação e de sujeição creditícia.

Esses créditos de "emergência" não são doações; constituem nova dívida soberana que recairá diretamente sobre as costelas da classe operária venezuelana mediante futuros planos de austeridade e reformas fiscais regressivas. O FMI e a CAF acodem para blindar o benefício dos grandes monopólios construtores, assegurando que o Estado burguês venezuelano disponha da liquidez necessária para pagar os contratos das corporações internacionais e de seus sócios da burguesia local, ao mesmo tempo que amarram novos mecanismos de chantagem financeira. A verdadeira "dobradinha": a dupla exploração operária

A catástrofe de junho de 2026 fecha o círculo vicioso da exploração do trabalho assalariado. Será a mão de obra proletária a que, sob condições de precarização laboral extrema e salários de indigência, deverá limpar os escombros e levantar de novo cada hotel de luxo, cada porto e cada edifício destruído. No entanto, uma vez concluída a reconstrução, as leis do mercado capitalista e seus míseros salários lhes impedirão novamente de ter acesso a essas infraestruturas de veraneio e a moradias dignas.

A única resposta histórica válida da classe operária diante da barbárie especulativa do desastre é a ruptura com a farsa eleitoral, a ruptura com as traidoras direções sindicais do regime e a organização de greves pelo aumento dos salários, das pensões e pela redução da jornada de trabalho, cada vez mais extensas, coordenadas e unidas, até chegar a uma greve geral de duração indefinida para alcançar esses objetivos, até seu desenlace revolucionário com a tomada do poder político por parte da classe operária, organizada em verdadeiros sindicatos de classe e dirigida pelo partido comunista internacional, com o fim de destruir o sistema de exploração do trabalho assalariado, que converte a morte dos proletários na oxigenação do Capital.

Evidentemente, todas as manifestações de solidariedade, massivas e espontâneas, que passaram por cima do controle do governo e de seus opositores, demonstram o poderoso potencial que existe na sociedade para a retomada da luta de classe.